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         Ler é uma coisa muito chata.
               
                Andre esteves

 
 
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Artigo originalmente publicado no Jornal Rede Bom Dia, em 11/07/2009.

Ler é uma coisa muito chata. Se a frase lhe causou indignação, parabéns. Você faz parte da privilegiada parcela da população que escapou do nosso sistema de ensino, o qual se esforça para que o ato de abrir um livro seja extremamente penoso para a maioria.

Procure se lembrar da escola: se, e esse se é deveras benevolente, lhe foi indicado um livro ficcional, dificilmente a obra não foi usada em uma avaliação. 90% da turma ou nem leu ou leu de má-vontade, somente por causa da prova.

Vem o ensino superior. Quando cursei Português Jurídico na faculdade de Direito, quase toda a turma torceu o nariz à leitura de livros ficcionais indispensáveis para formar um bom operador do Direito. Como não podia deixar de ser, mesmo na faculdade, o script se repetiu: a maioria nem abriu o livro ou leu apenas trechos.

O resultado, a nível de sociedade? Muitos, quando pensam em um livro, tem em mente uma só palavra: obrigação. Obrigação, irmã de enfadonho. Não é de espantar que apenas uma minúscula parcela da população se beneficie da literatura como um todo. Um tesouro reservado para poucos.

O quadro é triste, porque a literatura possui pelo menos duas funções poderosas. A primeira e mais importante é a capacidade de entretenimento. Ler, para quem vence a barreira inicial, é a maior diversão. Com um bom livro nas mãos, não existem fronteiras para a imaginação. Diferente de um filme, quando um comprimido é posto em sua goela, os livros são abertos. Para quem está lendo Dom Casmurro, qual é a aparência de Capitu? O que tem de tão especial que captura os homens? O que você imaginar. Você escreve o livro com o autor, ele somente lhe oferta o caminho. Se fizermos estas perguntas, receberemos de cada leitor uma resposta. Ela é única, para cada um deles. Agora, acomode-se para assistir ao filme. Capitu está ali, em carne e osso, para todos verem. Não é mais especial. Não é mais sua. Cerrou-se às portas da criatividade e da interatividade.

A segunda, decorrente da primeira, é o imenso potencial pedagógico. Quando se lê uma obra ficcional, trabalha-se a mente como um todo. A criatividade, citada anteriormente, mas também a capacidade de pensamento abstrato e de concentração, além da memorização e da lógica. Todas essas aptidões são extremamente exigidas no mundo competitivo de hoje, nos concursos públicos ou na iniciativa privada. Isso sem falar do contato com a língua escrita. E o melhor: todo esse aprimoramento alcançado sem esforço, enquanto se diverte.

Não pense que acabou. Ainda se aprende muito mais com livros ficcionais. Quer saber um pouco sobre a história recente do Afeganistão? Se estiver buscando cultura geral, não precisa comprar uma obra hermética, difícil de digerir. Separe meia hora por dia para ler O Caçador de Pipas. Enquanto se emociona com a história, e amplia inconscientemente a meia hora, esquecendo-se de que é um livro, está aprendendo muito sobre o Afeganistão. Tem curiosidade de saber como funciona um Tribunal do Júri no Brasil, a dialética, o conflito interno de um advogado de defesa? Faça isso com o Mistério da 13ª Letra, enquanto é tomado pelo suspense do que virá na próxima página.

Parece maravilhoso? Realmente é. Mas ainda é um privilégio para poucos. O fomento da leitura passa, necessariamente, pela escola. O professor, antes de um examinador carrasco, deve ser um entusiasta. Não discuto usar livros nas provas, avaliações são necessárias, mas por que não privilegiar as discussões, mostrar aos alunos que a obra é interessante e valiosa? Não pode um professor seduzir com a literatura se ele mesmo não gosta de literatura. Forma-se um círculo vicioso: o futuro professor sai da escola com a ideia de que ler não é uma atividade prazerosa, mas obrigatória. Depois de formado, passa aos alunos, que serão os professores do futuro, esta visão. Estes, por sua vez...

É claro que existem exceções. Mas são exceções.

Por isso, aperfeiçoar a forma como os livros são apresentados aos alunos e, consequentemente, a forma como os livros são vistos pela população, é a base para qualquer projeto de fomento a leitura. Quem sabe assim, em um futuro não tão distante, a maioria fique tão indignado quanto eu com a frase “Ler é uma coisa muito chata”.



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Aline Emi Tomo, 01/08/2009

Infelizmente, receio as coisas ficarem piores conforme a sociedade de hoje em dia. O livro é um filme que nós mesmo inventamos, apenas nos dão a base. É tão triste ver crianças que não gostam de ler.
 
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Valdeci Garcia, 23/07/2009

Ótima forma de abordar um tema quase sempre árido: pegar o leitor voraz pela indignação logo de cara: "Ler é uma coisa muito chata". Realmente, a escola, ou a maioria dos mestres, parecem trabalhar no sentido contrário de despertar o gosto pela leitura no aluno. E a pobre criança ou adolescente (e mesmo adulto) passa a ver o prazeroso ato da leitura como mera obrigação. Entendo isto, porque nunca aceitei como um professor pode exigir que alunos de sétima e oitava série leiam Machado de Assis, e que esses alunos saibam (sob pena de tirar nota baixa na prova) o momento exato em que a personagem central do romance enlouqueceu! Isto aconteceu comigo (e, por sorte, chutei corretamente, afirmando que o personagem enlouqueceu quando passou a imitar, nas fotografias em que aparecia, o Napoleão Bonaparte). Enfim, todos deveriam tentar fazer despertar nos alunos o prazer da leitura (o que nada tem a ver com obrigação, com decoreba para a prova, etc.). Mas o que fazer quando a ideologia do governo federal não é outra, que não emburrecer a população, para continuar com os seus 80% de aprovação?... A escola, infelizmente, continuará trabalhando contra os interesses do cidadão-leitor: não é preciso cérebro, só o dedo indicador para digitar o número do candidato nas urnas...
 
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Sidney St., 22/07/2009

Isso aí! Infelizmente, muitos educadores, como disse, escondem a lúdica, prazerosa e útil ferramenta que a literatura pode se tornar para as pessoas, pois não escolhem bem seus meios didáticos (se é que os têm, às vezes...), e acabam amedrontando, colocando em último plano o gosto pela literatura. Essa ainda é uma realidade dura pra ser mudada totalmente. Mas só são vitoriosos aqueles que vêem o que não está visível, e com esse artigo você promoveu uma espiadela nesse problema clássico, que faz com que os vitoriosos ainda sejam exceções nesse país... Ótimo artigo, Andre!
 
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Beto Guimarães, 20/07/2009

Parabéns ao Andre pelo artigo, muito bem escrito, oportuno e elucidativo. Em um momento que está para acontecer mais uma reforma do ensino básico neste país, acredito que a temática da leitura não pode ficar de fora das discussões; pelo contrário, ela tem que ser priorizada.
 
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