O livro de suspense mais inteligente dos_ últimos _tempos. Imperdível!
Mulher do Autor

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Meu nome é Carlos. E estou apanhando um bocado.

Não por causa do deputado Penedo, que bate como uma moça. A visão de sua banha balançando dói mais do que seus socos imprecisos. O problema são os golpes do capanga musculoso e calado que não sei o nome.

— É melhor você começar a falar.

A voz efeminada do deputado ressoa junto com o som de um dos meus dentes voando pelo soco do tal capanga. Talvez seja a hora de eu realmente começar a falar.

 

— Porra, seu Penedo, eu não sei de nada não... Manda ele parar de me bat....

O infeliz acerta uma pesada certeira em minha virilha — e você sabe o que eu quero dizer com virilha. A porra do chute é tão forte que quebra a cadeira em que estou amarrado e me lança no chão.

Sendo jogado momentaneamente no inferno, escuto de longe as palavras de Penedo:

— Eu tenho a noite toda para isso. Estamos numa casa isolada, ninguém, vai ouvir a porra dos seus lamentos. Eu sei que você andou abrindo gavetas que não devia. Que os antecedentes que usou para arrumar o emprego são todos forjados. Diz logo para quem tu trabalha.

— Eu trabalho para o senhor — consigo sussurrar quando percebo que as bolas ainda estão no lugar. — Eu tava desempregado e...

— Mentira!

— ...e pedi prum primo fazer umas cartas de recomendações. Eu precisava do traba....

Novo chute, desta vez na boca. Por sorte, veio do próprio deputado, não fazendo tanto estrago. O segurança havia ido buscar alguma coisa a pedido dele. Tentei levantar, mas com os pulsos e pés atados é um bocado difícil.

— Tô perdendo a paciência, Carlos — o deputado tirava algo do bolso. — Eu sei que tu foi enviado para me investigar. E sei por causa disso aqui.

Ele lança sobre mim o que havia tirado do bolso: um bocado de fio enrolado com uma cabeça dessas de fone de ouvido na ponta.

AAAAAAAAA— Está aí a porra da escuta que tu tentou plantar no meu AAAAAAAAAgabinete.

AAAAAAAAA— Seu penedo, eu nem sei que parada é essa.... O senhor está AAAAAAAAAcom a pessoa errada, alguém está armando para mim...

AAAAAAAAAO homem suspira e faz um sinal para o segurança que havia AAAAAAAAAvoltado com um objeto na mão. Não consegui identificar de AAAAAAAAApronto o que era devido aos ferimentos nos olhos. Entretanto, AAAAAAAAAquando ligou, o som estridente não deu margem à dúvida: uma AAAAAAAAAfuradeira.

AAAAAAAAA— Vou facilitar as coisas para você — disse Penedo em tom AAAAAAAAApaternal, a voz abafada pela barulheira — Já sei que é da Polícia AAAAAAAAAFederal. Arrumou emprego no meu gabinete para me investigar. AAAAAAAAADessa porra toda eu já sei. Só quero que me diga os AAAAAAAAAnomes dos policiais envolvidos nesta operação.

AAAAAAAAA— Eu não sei de nada disso... Sou faxineiro. Não sei porra AAAAAAAAAnenhuma de corrupção.

O capanga ajoelha-se e encosta a broca em minha cabeça, depois desce levemente para meu ouvido esquerdo, introduzindo um pouco no canal auditivo. As grossas gotas de suor que escorrem pela minha cabeça são estilhaçadas pelo girar da broca.

— Tu sabe muito bem que andei vendendo meus votos. Sabe que tenho ganhado dinheiro para fazer lobby. Sabe do desvio da verba que recebo para meu gabinete. Só que, daqui a um segundo, seu cérebro vai virar ovos batidos numa batedeira e você não saberá de mais nada.

A última palavra foi abafada por uma pequena explosão. O capanga logo tombou para trás. Consegui puxar a cabeça, evitando que a furadeira solta por ele estraçalhasse meus tímpanos. O homem estava caído no chão, a testa marcada com um círculo vermelho. Morto.

Vários homens utilizando coletes pretos me ajudaram a levantar e liberaram minhas mãos e pés. Do meu lado esquerdo, uma das paredes da sala estava em ruínas. O Deputado penedo encontrava-se ajoelhado e com as mãos levantadas, como se clamasse aos céus. Ainda demoraria um pouco para entender o que havia acontecido.

— Ainda vivo?

A voz vinha de um dos homens com o colete da Polícia Federal, um de cabelos grisalhos.

— Ainda, delegado.

Nos dois olhamos durante alguns instantes o deputado ser algemado, ainda com o olhar abismado.

— Deu para gravar a confissão, apesar do barulho da furadeira?

— Deu — o rosto do delegado Omar mostrava divertimento. — Acho que o nome dessa operação deve ser “operação furadeira”.

— Não tem nada de engraçado.

— Ah, deixa disso. Você realizou um ótimo interrogatório.

Saio para noite pelo buraco aberto na parede e respiro um pouco de ar puro. Se fico lá dentro, logo vão aparecer médicos querendo cuidar dos ferimentos. E não gosto de médicos.

Meu nome é Carlos. Antônio. Valdomiro. Sérgio. Maurício...

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