Num arroubo de originalidade, posso testemunhar com total isenção: O MISTÉRIO DA 13ª LETRA prende o leitor da primeira a última página.
Professor de escrita criativa do Autor

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"A violência leva à violência, e justifica-a."
Gautier, Théophile

 

Não me importava com as agulhadas no braço. Havia me acostumado com o nariz sangrando e insensível, após a terceira ou quarta carreira em formato da inicial do nome que escolhi desta vez. Afastei o pudor e mostrei ardor com as adolescentes que me deram de presente. Afinal, eles pensavam que era meu aniversário.


Tudo isso fazia parte da rotina do meu trabalho. Não era a primeira vez que me infiltrava em morro, embora nunca com uma aposta tão alta.


Antes de continuar, quero deixar claro minhas intenções. Não lhe conto tudo isso para que sinta pena; só quero que entenda, de verdade, o que me levou ao ato extremo de hoje, a despeito de toda a baboseira que a mídia deve estar dizendo.


Feita a ressalva, retorno a narrativa. Já há um ano ajudava naquela boca; comecei no avião, como sempre, e passei logo a soldado. Demonstrando as aptidões certas para tocar o negócio, foi me prometido por caveirinha, o chefe do complexo na época, que passaria à gerência. É claro que não estava ali para prender os mortos de fome que viviam no morro — muito menos para mudar de lado. Falcão era o pseudônimo do cara que abastecia metade das favelas do Rio. Já havia apreendido mercadorias dele no Paraguai, queimado algumas de suas plantações no Nordeste, e estive bem perto de descobrir sua identidade numa operação na Colômbia.  Mas o infeliz, como a ave que lhe dava o apelido, não deixava rastro.


Agora, como gerente, passaria a tratar diretamente com os agentes dele. Nunca estive tão perto, mas as coisas não estavam sendo fáceis.


Entre os traficantes — repare que me refiro à ralé da boca, e não aos que puxam as cordas de seus apartamentos no Leblon — existe uma espécie de tradição, conhecida como o “batismo”. Formas de batismo comuns eram roubar um carregamento de cigarros, invadir uma favela rival ou, mais raramente, trazer o coração de um inimigo num saco plástico de supermercado.


Talvez você já tenha percebido que aquele era o dia do meu batismo. Estávamos todos no cume do morro, uma clareira cercada de árvores e mato. Apesar da aparente beleza, não se deixe enganar; os únicos animais — sem contar nós, que não merecíamos classificação diversa — eram os abutres, que voavam cada vez mais baixo, pressentindo o aroma de morte.


Ajoelhado a frente de caveirinha, estava um homem dos seus quarenta anos, morador da favela. Já o conhecia de vista e sabia que trabalhava como entregador de gás. Sua mulher e as duas filhas vendiam salgados do morro, e eu costumava comprar.


Tudo isso só tornava a situação mais complicada.


A família dele estava na beira da clareira, impedida de se aproximar pelos homens — ou garotos — armados. A filha mais nova, de uns dez anos, trazia a mão enfaixada. A mãe não parava de espernear. Já a outra menina parecia uma estátua, observando tudo com seus olhos grandes.


O motivo da reunião era a mão enfaixada da menina: o pai havia chegado em casa bêbado e soltou pancada em todo mundo. A garotinha teve o pior destino, pois o pai espremera seus dedos na soleira da porta. Uma semana hospitalizada e dois dedos amputados, agora ela ali estava, enrolada na bainha da saía da mãe.


Caveirinha olhou para mim e balançou a cabeça; era hora. Aproximei-me do entregador de gás e seus lamentos passaram a ser dirigidos para mim. Pelo que disseram, ele tinha enlouquecido quando soube da amputação e andou uns dias vagando pela rua. No entanto, caveirinha gostava de manter a lei na favela e mandou gente atrás dele.


Cheguei mais perto e senti o fedor que emanava do homem. Estava com a roupa rasgada e suja, como se fosse um mendigo. Ele meteu a cabeça entre os meus pés, esfregando o rosto na areia. Os gritos da mulher se acentuaram, pedindo perdão para o marido. Um dos traficantes a mandou calar a boca, senão rodaria também. Os urubus se aproximavam ainda mais.


Puxei a pistola do cinto — uma PT 380 cromada —, dei o golpe para colocar a bala na agulha. Não era um dos meus momentos mais agradáveis.


De repente, senti alguma coisa puxar minha blusa. Era a menina ferida, que passara pela barreira de traficantes, talvez por que estivesse absolutamente calma. Seu rosto contrastava enormemente com o clima no local e meus próprios sentimentos.


— Não mata meu pai, não.


Difícil explicar a doçura de sua voz; mais difícil ainda é explicar o olhar de desafio que caveirinha — e os demais bandidos — me lançavam.


O vento e o choro do homem eram os únicos sons no cume. Então empurrei a menina e joguei meu joelho sob o maxilar dele, escutando o barulho de algo quebrando no processo. Arrastei-o pela camisa, agora escutando os gritos de todas as mulheres presentes. No canto da clareira havia uma caixa de cimento grande, conhecida como o microondas da favela. Joguei o homem de cabeça e descarreguei a pistola nele. Sem hesitar.


Embaixo da “churrasqueira”, havia um latão de gasolina que despejei sobre o corpo. Acendi um fósforo e assisti a explosão de fogo que afastou, ao menos temporariamente, os funestos pássaros.


Passei pelos traficantes, visivelmente orgulhosos, e pela família chorosa do falecido. Continuei descendo e fui para a casa que ocupava no morro, abri a geladeira e destampei uma cerveja.


Falcão estava próximo agora. E nunca gostei de homem que espanca mulher, que dirá crianças. Continuei repetindo isso para mim mesmo até que acabou o estoque de cerveja em casa e eu saí para comprar mais.

 

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Parabéns!!!

Eve, 20/04/2009

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Essa historia foi uma das melhores que eu ja li ate hoje vcs estao de parabéns...

Thais Costa Silva, 10/04/2009

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A mão enfaixada da garotinha, o equilíbrio psicológico perfeito para estar "entre lobos" sem sê-lo. Inteligente! Próprio de quem já sabe escrever.

Josemar da Silva Neres, 24/02/2009

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Muito bem escrito. Mais do que isso, curto e genial.

Danilo Neves, 05/12/2008

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O que sempre chama a atenção é a ética que existe entre a bandidagem. E também o jeito que os marginais lidam com ela. Vc conseguiu passar isso com perfeição.

Júlio César Correa , 01/11/2008

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De abutres e de silêncios gritantes, quiçá escondidos n'alma do "matador", que embora em "batismo" sentisse o toque mágico da emoção,mas "conseguiu" matar e tacar fogo, o conto é o limite(extrapolado) entre o (ir)real e inapagável, em ato e em memória.Belo!

Veronica-Noic@, 13/10/2008

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Quem deveria ser morto eram esses traficantes do morro, desgraçados!!!! Exelente conto de Andre Esteves, estou virando fã !

Igor Firmino, 07/10/2008

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Excelente, o conto!

Vinícius, 12/09/2008

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Muitoo boom achei que ele ia ficar com pena da menina, mas.... Muitoo boom, parabéns ao autor!

Lili, 04/09/2008

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Estava procurando um site de contos para me inspirar para escrever o meu, é um travalho de escola. Não conhecia o site, mas adorei. O conto é muito inteligente, mostra uma realidade nua e crua. Uma realidade cruel, mas real. O autor merece lançar um livro. Deu muita pena da garotinha, e pensar que isso acontece de verdade... muito triste.

Mary Vick, 30/08/2008

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Muito bom.

Daiane, 26/08/2008

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Sinceramente, foi um dos melhores contos que já li. Me prendeu muito, e o final foi bárbaro, emocionante mesmo. Acho que o autor conseguiu expressar muito mais do que está aí escrito. Achei profundo, interessante e real. Conheci o site hoje, e já vou virar freguêsa!

Isaura, 07/06/2008

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Conto perfeito, seco, telegráfico. Original, antes de tudo, especialmente no estilo narrativo.

Alexandre Gazineo, 20/02/2008

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Adorei o texto.
eh um conto q envolve mesmo o leitor.
Muito bacana.
Foi um tema muito bem escolhido ao qual muitos brasileiros vêm sofrendo com esse desenvolvimento estatal desproporcional ao crescimento econômico brasileiro.
eh uma vergonha essa situação.
Mas a esperança permanece no coração.
Parabéns ao autor
e ao site.
Adorei tudo.

Luluxa, 05/08/2007

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Fiquei com pena da garotinha...

Rosanne, 29/07/2007

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Muito bom o conto. Violento e sombrio como nossas favelas. Fiquei pensando se ele ia fazer ou não.

Carlos Augusto , 29/07/2007

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Muito bom, acho que um dos melhores que já li nesse site. Inteligente, bem feito e a cara da nossa dura e crua realidade, sempre apagada pelas nossas belas praias na novela das oito e recentemente pela terceira maravilha do mundo e pelo PAN.

Rafael Barroso, 26/07/2007

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