Poucas vezes vi uma abordagem tão lúcida sobre a relação da ciência com a fé, ainda mais inserido numa história de tirar o fôlego. Uma proeza considerável.
Cunhado do Autor

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Peguemos você, por exemplo.

Você, com certeza, está sentado em frente ao computador, assim como eu ao escrever estas linhas. É claro que você pode estar deitado ou em pé olhando para a tela, ou ter imprimido o texto e estar lendo isto no banheiro. Não é importante. O que interessa é a seguinte pergunta: Você está se deslocando? Neste exato instante, você está saindo do lugar?

Certamente, se você não está lendo isto num ônibus a caminho do trabalho, o que me lisonjearia muito, sua resposta, assim como a minha, é “não”. Mas estamos errados. Neste mesmo momento, apesar de todas as aparências, você está se movimentando numa velocidade vertiginosa. Na verdade, milhares de quilômetros por hora. O lugar onde está não é o mesmo de um segundo atrás. Isso vale para seu computador, sua casa e até sua cidade.

Estamos todos viajando numa gigantesca bola azul por um mar negro literalmente infinito. “É óbvio, diz você; qualquer criança sabe disso”. Mas, por um instante, esqueça tudo que já escutou sobre ciência. Ou melhor, imagina-se numa época antes de Galileu, Einstein e companhia. Tal afirmação seria o delírio dos delírios, o supremo ápice onírico, dando ensejo até a pena de morte. Tudo por que contradizia o pensamento da época, além de ferir gravemente o senso comum. Afinal, você diria que no tempo que está lendo este artigo, confortavelmente sentado em sua cadeira, viajou algumas centenas de quilômetros?

Por isso, a ciência é, muitas vezes, senso incomum. Prova aquilo que nossos sentidos não percebem. A terra sempre foi redonda, a eletricidade e o fogo sempre existiram, e os corpos dos seres humanos são cobertos de microscópicas criaturas desde o início dos tempos. Só que nós não sabíamos disso.

Um dia, entretanto, alguém entendeu que se estivesse numa determinada velocidade, com uma determinada aerodinâmica, era possível voar. Daí aviões, televisões, telefones, computadores, carros. O princípio que permite o vôo foi criado? Não, apenas descoberto.

Nesse mesmo momento, quantos princípios nós desconhecemos? Quantos elementos ainda estão ocultos, o quanto ainda há para ser descoberto? Pode existir um princípio ou determinado tipo de matéria que, por exemplo, cure todas as doenças. Que prolongue a vida. Que acabe com o que chamamos de morte. Que permita encontrar e conversar com pessoas que já partiram. Que faça voarmos sem a necessidade de aviões.

Parece loucura? Imagine-se novamente um homem do passado, do império romano, por exemplo. Depois, leve-se para passear num shopping, com direito a uma ida ao cinema e táxi depois. Será menos loucura para ele do que tudo que foi dito no parágrafo anterior para você?

Os homens de qualquer época e local têm uma explicação própria para o mundo. Em todas, esse conhecimento é considerado acabado, a verdade absoluta. Em uma, o mundo foi criado por deus em sete dias. Em outra, foi um colegiado de deuses. Em mais outra, tudo que existe é apenas ilusão da nossa mente. É claro que cada uma dessas correntes possuem pessoas que se consideram guardiões do saber. Os senhores dos dogmas.

Atualmente a ciência tradicional acredita ter descoberto quase todos os princípios que regem o mundo. Não há necessidade de Deus. Está tudo explicado e acabado. O universo surgiu de uma grande explosão, formou-se este lindo planeta azul, e a evolução das espécies tratou de trazer eu e você para frente do computador neste instante. Muitos indivíduos — que se intitulam erroneamente de “céticos” — não aceitam discutir e procuram ridicularizar qualquer coisa que escape ao seu modo de pensar. Universos paralelos, consciência afetando matéria, percepção extra-sensorial, espiritualidade, OVNI’s. A lista é longa.

Assim é a personagem Ana Lúcia, do meu livro “O Mistério da 13º Letra”. Ela é conhecida como uma cética eloqüente e irônica, mas não merece o rótulo. O cético, no significado mais puro da palavra, é aquele que desconfia, interroga, não aceita afirmações sem provas. Infelizmente, o que vemos atualmente — basta entrar em alguns sites ditos céticos — é que, como Ana Lúcia, os supostos céticos não duvidam, mas DEFENDEM seus pontos de vistas, da mesma forma que um cristão, um budista ou ufólogo fariam. Também são, como todos os outros, formadores e senhores dos dogmas.

Quais serão os conhecimentos correntes daqui a duzentos anos? O que será descoberto? O que é verdadeiramente este mundo? Qual seu propósito? O que somos nós? O que ocorre depois que partimos?

Eu não sei a resposta de nenhuma dessas perguntas; mas sei de uma coisa — ninguém que está neste navio azul sabe.

 

“Não pode o universo ser medido em tubos de ensaio, muito menos estratificado em livros milenares. Todos temos muito a aprender”.

Andre Esteves, em “O Mistério da 13º Letra”.

 

 

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