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Leio livros policiais há oitenta anos e nunca fiquei tão maravilhado com a solução de um caso. Uma obra magistral. |
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— O cadáver é de um homem de 29 anos chamado Carlos, atingido por um martelo no topo da cabeça. Foi o que lhe causou a morte, segundo o legista. A arma foi encontrada junto ao corpo e a marca de sangue no instrumento é compatível com o ferimento. Não há impressões de digitais. Diversas lacerações estão espalhadas pelo corpo, mas foram feitos antes da pancada, com uma gilete ou outra lâmina bem fina, nos dando indícios de tortura. A teoria é fortificada pelo fato dos tornozelos e dos punhos da vítima apresentarem sulcos profundos, que impediram o fluxo sanguíneo mesmo antes da morte. A corda usada para amarrá-los não foi encontrada.
— Ele foi encontrado pela empregada, que chegou de manhã. A casa, bem luxuosa como pode ver, é dele. Carlos trabalhava com propaganda, e parece que esse negócio dá dinheiro. Nós já descobrimos que ele esteve numa festa ontem à noite e saiu por volta das duas horas. Era homossexual, e algumas das testemunhas não mediram adjetivos para descrever como ele se divertia com os rapazes na festa. As poses de Carlos nas fotos que Dantas examinava já denunciavam sua opção sexual. Somente mais duas pessoas apareciam nelas: uma senhora loira e alta, com os mesmos olhos dele, e um outro rapaz, bem magro, dos seus vinte e poucos anos. — A mulher é a mãe. O cara se chama Jéferson e era o namorado dele ou coisa que o valha. Segundo a empregada ele morou aqui até semana passada, quando a infidelidade de Carlos fez os dois brigarem. Dantas finalmente largou as fotos e olhou para mim: — Mas Jéferson deve ter aparecido na noite passada. Não é para acompanhar o depoimento dele que você me chamou, Omar? — É. Ele apareceu na boate e consta que esbofeteou Carlos na frente de todos. Este não deixou barato, e os dois se engalfinharam na pista de dança — ri por um instante, imaginando a cena. — O fato é que ele não parece possuir qualquer álibi. Ainda vamos interrogá-lo. Mantive o sorriso no rosto e Dantas percebeu que eu escondia algo. — Tem algum indício de que ele veio aqui ontem? — Bem, sim. Próximo ao corpo havia um anel que lhe pertence, conforme reconheceu a empregada. Achamos que caiu enquanto ele dominava Carlos. — Que horas Carlos chegou? — O legista que examinou o cadáver a pouco asseverou que a morte ocorreu há umas dez, onze horas, então nós calculamos que ele deve ter chego lá pelas três. Não vinha acompanhado do assassino, pois tanto o portão como a porta da casa foram arrombados. Venha ver. Seguimos pelo hall de entrada até a varanda repleta de plantas que cercava a frente da residência. O mecanismo da fechadura da porta estava arrebentado, e marcas pretas impregnavam a madeira adjacente. — O invasor usou uma seringa para jogar álcool na fechadura e depois lançou fogo, causando uma pequena explosão. Método simples e eficiente de arrombamento, e deve ter pelo menos uns 10 mil sites malucos ensinando fazer isso hoje em dia. A mesma coisa ocorreu com o portão.
— Vamos — chamei eu, meio exasperado. A persistência dele em perder tempo com bobagem sempre me inervava. — Um cachorro deve ter deitado aí, só isso. Já sabemos que o assassino arrombou o portão. — Ter que repetir o óbvio também me inervava. Na verdade, quase tudo em Dantas me inervava. — Vou interrogar Jeférson agora. Vem. Fomos para uma varanda lateral, onde dois policiais conversavam sem dar muita bola para um rapaz sentado com a cabeça pendendo sobre os joelhos, as mãos cruzadas sobre as pernas. — Jéferson chegou aqui há umas duas horas. Alegou ter vindo para conversar com Carlos e que não sabia de nada. Tentei interrogá-lo, mas ele exigiu a presença de um advogado. Aí liguei para você. As apresentações ocorreram quase sem palavras. Identifiquei Ricardo Dantas como advogado, e o rapaz limitou-se a balançar a cabeça. Estava com o rosto inchado e vermelho de tanto chorar, mas não era de hoje que eu via os mais frios assassinos berrarem como nenéns. Dantas, no entanto, sentou ao seu lado e apertou seus ombros num abraço solidário. — Será que agora pode falar de uma vez onde estava ontem? — indaguei, sentando em frente ao garoto. — Não posso não. Não sou obrigado a responder porra nenhuma. — Pensa que está no salão de beleza, sua bicha? Se está com dúvida, posso dar tanto na sua cara que nem transformação da Xuxa vai dar jeito! Eu havia levantado, mas Dantas também. Ele pediu calma e cochichou algo no ouvido de Jéferson. — Ele vai falar, Omar. Senta, por favor. Meu deus! Sentei devagar e refiz a pergunta, dessa fez de forma deliberadamente lenta. — Encontrei com Carlos numa boate onde costumávamos ir. Depois fui para a casa e não o vi mais. E só. — E só o caralho, moça. Você viu seu namoradinho beijando outras mocinhas, não é? Você veio aqui e cortou ele todo com a gilete, não é mesmo? Porque usou o martelo? Não tinha cuspe o suficiente para afogar ele não? — Omar! — Clamou energicamente Dantas. — Posso lhe pedir só um favor? Depois você o interroga como quiser. Só quero fazer três perguntas a ele, tudo bem? Essa era nova. O policial era eu. O advogado só ficava presente no interrogatório para garantir que o interrogando não sofresse qualquer violência física ou mental. Não fazia perguntas. Mas Dantas estava com o rosto iluminado, uma postura ereta que era rara, mas que eu aprendera a respeitar quando surgia. Assenti com a cabeça. — O pai de Carlos ainda é vivo? — perguntou ele ao rapaz. — É sim — Jeférson pareceu surpreso. — Mora ainda com a mãe dele? — Mora sim. Mas o que inte... — Terceira e última pergunta — Dantas sorriu. — Ele é gordo? — Só o vi uma vez, há uns dois anos. Na época estava bem gordo. Carlos me apontou ele na rua... — E só, Jéferson — o advogado escreveu algo num papel e o entregou ao rapaz — aqui está o preço dos meus honorários. Se puder me dar um cheque agora, melhor. — Ei, não estou entendendo! — exclamei. — Vá até o pai de Carlos. Confronte-o dizendo que ele matou o filho. Tenho certeza que confessará. Se quiser garantir, percebi que havia alguns fios naquela lama remexida. Você deve ter pensado que era pêlo de cachorro, mas garanto que é cabelo do pai de Carlos. A barriga não permitiu que ele passasse por debaixo da grade, então ele arrombou o portão, como já pensava em fazer com a porta. Tanto eu como Jéferson o olhávamos espantados. Era como se o maldito sistema operacional do meu cérebro tivesse travado, sem direito a ctrl+alt+del. — Meu cheque, por favor — insistiu ele.
Não foi necessário fazer DNA dos fios, porque o pai de Carlos, Genaro, confessou tudo assim que eu o acusei. Ele não falava com o filho desde que ele revelara sua homossexualidade e guardou rancor durante anos, até o dia que resolveu acabar com a vergonha que ele achava que Carlos era. E de forma a incriminar e punir o namorado. Pensei muito como Ricardo Dantas chegou a isso, mas depois de uns dias percebi que não havia sido nada de mais. Era óbvio que o vão do portão permitiria a passagem de alguém magro como Jéferson, e que a ausência de fotos de Genaro na casa do filho demonstrava uma briga entre eles. O anel caído também era claramente uma pista forjada. Desde o início vi isso. Mas a idiotice de Dantas ficou estampada mesmo na miséria que pediu como honorários — cem reais. Se fosse eu, tinha deixado o caso ir a julgamento, só conseguindo a absolvição no fim, e ganharia uns cinqüenta mil reais por isso. Eita cara burro! |
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Amei... A lógica do Advogado foi espetacular... Posta mais contos... Ameiiii Ana Paula, 29/06/2009 |
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Magistral! Esse conto faz jus a estar como primeiro da lista. Não vejo a hora de comprar o livro do autor. Virgílio, 29/03/2009 |
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Ótimo conto. O advogado usa métodos parecidos com o de Sherlock Holmes ou Dixie Tepper. Anderson Alvez, 08/02/2009 |
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Muito bom! Bem ao estilo Sherlok Holmes! Luiz Fernando, 17/01/2009 |
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Muito bem escrito, com boa lógica e desenvolvimento e bem tradicional. Nicy, 05/01/2009 |
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Muito bem escrito. Brilhante a lógica do advogado. Porém, acho que a estória do (...) já ta muito manjada... Ranyeri Bozza, 25/12/2008 |
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Andre Esteves, posta mais contos do Ricardo Dantas, por favor! Igor Firmino, 03/12/2008 |
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Interessante, me prendeu na leitura como gosto, não que deixasse de ser óbvio, mais intrigante mesmo foi o fato do caso ter sido solucionado por um advogado e não um detetive. Sabe, me deu ânimo a contiunar lendo estes contos que me foram apresentandos hoje, parabéns ao autor e tente surpreender sempre! Sofhie, 13/11/2008 |
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Razoável. Martha, 12/11/2008 |
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A maneira brilhante como o advogado Dantas desvendou esse crime,com certeza deve ter deixado Sherlock Holmes com vontade de voltar para a ativa. Parabéns por esse ótimo conto. Saudações cordiais. Beto Guimarães, 20/10/2008 |
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MARAVILHOSOOOOOOOOO Marilda, 06/10/2008 |
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Argumentações totalmente convincentes. Boa iniciativa do Dantas! Cláudio Quirino, 26/04/2008 |
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Nossa muito bom mesmo, eu adoro contos policiais, até mesmo pq quero ser uma algum dia, estudo pra isso. Bruna Ferreira , 16/03/2008 |
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Mas quem descobriu tudo isso foi o Advogado Dantas! Juju, 18/01/2008 |
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Muito bom! Fabiana, 13/08/2007 |
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Bem no estilo policial tradicional esse conto. A atuação do detetive foi fantástica. Darly, 14/08/2007 |
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