Joaquim sentou na varanda e solicitou calmamente para o mordomo uma banana. Descansou numa cadeira. Era tanta informao girando em sua mente que mal conseguia respirar. Retirou um dos sapatos que apertava-lhe o p e reviveu a sensao de alvio e conforto. Olhou a carta, que concentrava informaes cabais. Ficou na dvida: onde poderia jogar a casca da banana que acabara de receber do mordomo?
Rememorava os fatos e pensava, enquanto descascava a fruta, o quanto gostava de comer banana: a doce do paraso. Como gosto de bananas, pena que sempre desperdiamos a casca, analisou. , a casca se joga fora, respondeu para si prprio. Depois, ficou repetindo mecanicamente a palavra casca. Casca, casca, casca, casca, casca, casca, casca. isso! CAS-CA! Casca!.
Se antes faltava-lhe coragem para decidir em qual local daquela imponente varanda ficaria depositada uma simples casca de banana, agora Joaquim no hesitava em se desfazer completamente da fruta. Voltou com flego para a sala.
- Co-comissrio! Co-comissrio! - e chegando no cmodo Co-comissrio prenda-da Isaac ne-neste e-exato momento! Pren-prenda Isaac ago-go-ra! Fo-foi e-ele, fo-foi e-ele que-quem assa-ssissi-nou Elza, su-sua irm g-gmea! Co-como g-gmeos, Isaac s era di-di-diferente de Elza no g-gnero masculino. Por de-dentro, bem... Por de-dentro e-eram g-gmeos i-i-idnticos! Su-sua pederastia latente-te proporci-o-o-onava a inve-ve-ve-ja fatdica e de-desumana! Inve-ve-ve-ja que acabou com a vida de Elza. Aqui, se-senhores, na referida e supo-po-posta carta annima e ameaadora, que chegou at a vi-vtima, concentra a se-sentena co-contra Isaaac! O prprio assa-ssi-ssino se-se entregou neste documento ardiloso!
Todos na sala ficaram perplexos. At ento Isaac demonstrava colaborao com as investigaes. De fato, recusou a vinda do escritor e at mesmo alegou uma certa falta de concentrao para evitar escrever o bilhete que solicitava a presena do autor renomado.
Com as palavras de Joaquim, as evidncias comearam a ficar claras, principalmente para os familiares que acompanhavam o desfecho daquele assassinato. Eles passaram a reviver situaes onde realmente Isaac colocou prova a disputa direta com a irm, contrariando todos os votos de felicidades que os gmeos mais afortunados da sociedade carioca receberam quando vieram ao mundo, h trs dcadas.
- Senhores, senhoras e meus queridos parentes: no caam na ambigidade deste falsrio! Deste canalha metido a escritor! Vejam, at hoje ningum aqui do Rio de Janeiro, ou de qualquer parte deste quinto dos infernos, soube precisar se a jovem traiu seu esposo naquela trama imoral e imprpria inventada por este mulato exibido. Este gago epiltico. Ele mal consegue falar! Voc, seu Joaquim Maria no passa de um mulambo! Gago insolente! Epiltico maltrapilho! Eu no matei minha irm e nunca fui pederasta, como supe este filho de lavadeira!!!
O escritor ouviu com dor os insultos me, falecida h tantos anos. Porm teve calma para o debate:
- Triste sorte do insensato-to! Filho de lavadeira-ra sim se-senhor e com muito orgulho! Ela me deixou dignidade! Agora vo-voc Isaaac, se-se traiu, a co-come-comear pelo olhar inquisidor que dirigiu a mim no mo-momento que o liberto me abriu as po-portas deste casaro. Das mos do co-comissrio pude ler claramente que o recado que ele traz consigo foi assinado pelo guarda-livro Paulo, o me-mesmo que me dirigiu este que guardo em meu bolso. Sendo o nico curador dos Barroso, eras t o homem quem deve-ve-ria assinar as co-correspondncias e os co-convites de fu-funerais. Estranhei o recado assinado por Paulo, mas co-como sou um antigo amigo dos Barroso, e isto desde a poca de mame e de papai, no relutei em vir ajudar nas inve-ve-stigaes. Repito que voc se traiu, principalmente por co-confessar que leitor de minhas obras, apesar de consider-las imprprias ou imorais, co-como disse h pouco. Nunca imanginei que um trecho de minha pro-produo literria um dia iria se-servir de prenncio para a morte. Aqui, nesta nefasta carta, voc cita para sua irm o trecho do meu co-conto 'As Academias de Sio' : - E se eu lhe der um remdio a tudo. Logo de-depois acrescenta de fo-forma odiosa: Como gostaria de ter vivido em Sio. T poders ir para l. Para quem ainda no co-conhece este meu trabalho em 'As Academias de Sio' relato a fan-fantasia de troca de sexo. Isaac voc gostaria de ter nascido mu-mulher. por isso que arquitetou o homicdio. Co-comissrio pre-prenda-o.
Joaquim sentou e fixou o olhar no marido de Elza. Era ele quem agora reprovava o escritor com o olhar. O Comissrio nem se mexeu. Continuava atnito com as revelaes daquela noite. Foi aps um silncia de alguns minutos que Leopoldo, o esposo de Elza, numa atitude inesperada passou a insultar o escritor carioca:
- No so provas para incriminar meu cunhado! Bem que ouvi sobre suas aspiraes, Joaquim! Como alega, seu gago insolente, que um Barroso tenha matado outro Barroso? Falcias, so meras falcias sem qualquer comprovao! D at angstia em ouvir este homem falar, este mulato exibido! Gago prensuoso! Sempre preferi, e prefiro, a literatura de Raul Pompia, o grande Raul Pompia que, infelizmente, j nos deixou. O seu magnfico 'O Ateneu' supera toda a produo deste filho de lavadeira!
Como que despertando de um sono, o Comissrio proclamou:
- Guardas: prendam Isaac e Leopoldo! Os dois so comparasas na engenharia maliciosa deste crime! - e, se dirigindo para Joaquim Obrigado por clarear a mente deste velho policial, mas, pelo amor de Deus, cuide desta gagueira. Tente algum tratamento...
Antes de sair na companhia dos guardas que levavam os dois presos da noite, o Comissrio cochicou ao ouvido do escritor:
- Percebi quando Leopoldo lhe lanou um olhar mortfero e cruel, notei o dio dele. um caso de pederastia assassina, motivado pela foturna dos Barroso. Vai ver que Leopoldo era, na verdade, o 'marido' de Isaac. De certo, os dois se conheceram num colgio interno, j que ele falou tanto do livro de Raul Pompia...
Em tom de confidncia, o escritor respondeu tambm ao ouvido do Comissrio:
- Aos per-perdedores-res, as cas-cascas! Cascas!