Ali estava ele mais uma vez, ocupando sua habitual cadeira numa mesa redonda rodeada por homens de sangue frio e outros malucos. Quase todas as noites Marcos batia ponto num falso apartamento para apostar até a alma em jogos de pôquer. Na sala enfumaçada, cheirando a uísque barato ele perdera certa vez até a pequena casa onde morava para pagar suas malditas dívidas. E foi numa dessas noites que Marcos viu sua vida ser arrastada de vez para o inferno.
Era a última rodada, até ali ele não havia ganhado uma única vez, suas fichas e seu dinheiro voavam como o vento para as mãos dos outros apostadores. O jogo acabou e para um único apostador ele ficou devendo cerca de cinco mil reais, acumulando com mais outros dois dias de jogo. Marcos não tinha como pagar e nem tinha mais nada a oferecer, foi então que cobrador lhe fez uma proposta um tanto indecorosa. Para pagar a dívida ele deveria executar outro jogador que já lhe devia o montante de vinte mil reais.
Marcos não reagiu de imediato, ficou visivelmente chocado. Mas fazer o que? Ele não tinha escolha, ou aceitava ou o executado seria ele. Com a voz trêmula e as pernas bambas ele aceitou a proposta. Seu cobrador com um sorriso cínico e largo estampando o rosto informou que era pra ele estar amanhã à noite em um determinado endereço. Anotou num papel e entregou a ele.
No horário e endereço anotados por seu cobrador Marcos já o esperava. Minutos depois que ele chegou viu um carro importado aproximar-se dele pelo meio fio. O vidro de trás abaixou-se e um homem trajando um terno escuro sem pronunciar uma única palavra lhe entregou uma caixa branca de papelão. Antes que Marcos pudesse dizer alguma o carro já havia partido.
Na caixa havia uma pistola automática com silenciador. Ele engoliu a seco, não fazia ideia de como seu dedo trêmulo e sem forças conseguiria puxar o gatilho e tirar a vida de alguém em troca da paga de uma dívida. Dentro da caixa também tinha um papel com o número da casa onde o tal devedor morava e uma foto dele.
Perto das onze horas Marcos já estava postado atrás de uma Kombi do outro lado da rua, quando viu o tal estudante universitário aproximar-se do portão de casa. Marcos respirou fundo, encheu o peito de coragem e enquanto o estudante abria o portão, Marcos mirou a pistola e com o dedo trêmulo puxou o gatilho duas vezes.
No dia seguinte várias viaturas tomavam conta da estreita rua residencial, onde a calçada ainda manchada de sangue havia sido o cenário do primeiro homicídio cometido por um homem que nunca havia matado uma mosca sequer. Marcos de volta ao local do crime sentia-se aliviado por ter livrado sua cara e ter livrado a alma daquele pobre jovem de se arrastar ainda mais para o jogo. Marcos não tinha mais um peso na consciência.
À noite foi ao apartamento que servia como salão de pôquer e deparou-se com um cobrador muito satisfeito, tanto que lhe garantiu que se executasse outro devedor até lhe pagava uma grande quantia. Dessa vez Marcos não se fez de rogado e muito menos sentiu aquele frio percorrer-lhe a espinha. Aquela foi a segunda de muitas execuções. Marcos havia se tornado tão sangue frio quanto aqueles homens que preenchiam o apartamento, aquele jogador compulsivo tornara-se um matador de aluguel.
Durante quase um ano Marcos armou emboscadas perfeitas, executou e roubou cerca de vinte pessoas. Evoluiu da pistola para um fuzil, nada muito grandioso apenas algo que atirasse bem e sem muito alarde. Tudo corria como cobrador e matador planejaram, mas uma das vítimas poderia colocar tudo a perder.
Era véspera de Natal e o presente para aquela família seria ver seu patrono morto por uma rajada de fuzil na porta de casa.
Marcos foi para o endereço dado pelo cobrador, escondendo numa caixa comprida de madeira sua arma predileta. Postou-se atrás da parede frontal de uma construção em processo de demolição, e quando olhou para a casa da vítima deu-se conta de que aquele bairro e aquela residência era onde morava seu único irmão. Estranho é que nunca soube que o primogênito da família também era um apostador nos jogos de azar. Só agora ele abria o envelope para pegar a foto, já que diferente do primeiro assassinato o cobrador lhe dava um envelope branco com o endereço anotado por fora e a foto em seu interior. Suas suspeitas foram confirmadas, a próxima vítima era seu irmão.
Eram quase nove horas da noite, quando Marcos viu seu irmão aproximar-se do portão da casa. Ele não sabia o que fazer, tinha que tomar uma decisão e bem rápido, antes que perdesse sua presa.
Seu irmão estava quase chegando próximo à casa, Marcos começava a suar frio. O fuzil antes firme em suas mãos agora amolecia diante daquela situação.
- É para o seu próprio bem, acredite. E que Deus me ajude.
Marcos fez o sinal da cruz e apontando a mira do fuzil, disparou três vezes contra o irmão, dois disparos acertaram as costas e um a cabeça. Depois de atirar Marcos escondeu-se atrás da parede em demolição e ficou por lá durante um tempo. Tempo suficiente para ouvir os gritos de desespero da cunhada e dos sobrinhos.
Mais tarde Marcos foi ao encontro do cobrador num escritório nos fundos de uma boate. Acompanhado por dois seguranças Marcos entregou-lhe a caixa com o fuzil e o envelope. Visivelmente abalado disse que estava caindo fora e que não queria mais nada que envolvesse jogos ilegais.
- Espero que tenha se despedido do seu irmão.
- Você sabia?
- Sei tudo a seu respeito. Até sobre a época em você servia como saco de pancadas no colégio - disse rindo.
- Seu filho da mãe - disse avançando sobre o cobrador.
Marcos foi agarrado pelos seguranças.
- Levem-no daqui. Nosso franco atirador agora é peso morto.
Os seguranças o levaram para um matagal onde Marcos foi executado com cerca de trinta e cinco tiros disparados a queima roupa. Ele que matara tantos em menos de um ano agora estava sendo morto pelas mãos de quem o contratou.
A polícia sabia que as vítimas era apostadores em jogos de azar, mas nunca descobriu quem era o matador de aluguel. Quando encontraram o corpo de Marcos tinham a certeza de que aquela era só mais uma vítima.