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Rápido, ainda dá tempo de ler as últimas páginas! |
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São duas e quinze da manhã. A cidade dorme. Não há luzes acesas nas casas, e o silêncio chega a ser ensurdecedor. Um raio corta o céu, iluminando por um instante a entrada do Leoni’s, espelunca para a qual estou me dirigindo. Qualquer um que tenha o mínimo zelo por seu pescoço procura passar longe de lá, mas ultimamente meu pescoço não vem me preocupando muito. Além disso, o peso da Bereta no coldre em minha calça me trás alguma tranqüilidade. Enquanto caminho em direção ao meu destino, as gotas de chuva tornam-se mais grossas e constantes. Minha jaqueta vai aos poucos se encharcando, o que não me incomoda. A chuva sempre me acalmou, me trouxe uma paz que nunca consegui explicar. Eu não procuro abrigo, deixo as gotas se chocarem contra meu rosto, sinto-as acariciarem minha pele como mulher nenhuma jamais conseguiu. Mais raios cortam o céu, espalhando luminosidade pela rua, espantando vira-latas assustados. Ao empurrar a porta do Leoni’s eu sinto todos os olhares pairarem sobre mim. Há cerca de vinte pessoas no recinto, a maioria homens mal encarados que bebem cerveja ou jogam cartas com outros da mesma espécie. O bar mais mal afamado da cidade tem uma clientela composta apenas por perdedores e criminosos. Qualquer um que não corresponda a esta descrição não é bem-vindo. Mas eu sei que eles não vão se meter comigo. Quando se tem dois metros de altura e cem quilos de músculos, as pessoas te olharem se torna algo corriqueiro. Mas é só o que elas fazem. E foi só o que eles fizeram. Depois de constatarem com o que estariam se metendo, concluíram que era melhor voltarem ao jogo e às bebidas. Aproximo-me do balcão, que está vazio exceto por um cara na outra ponta. Uma moça lava copos na pia, e um homem vestido como barman fuma silenciosamente sentado num banco. Ele me olha e não se meche. Espero. Digo a mim mesmo para não fazer nada precipitado, como discutir com um garçom idiota. Ouço uma voz me chamar à distância. - O que vai querer? – pergunta a moça pela segunda vez. - Uma cerveja, por favor. Ela me arranja uma e a abre. Posso ver por seu olhar que está interessada. Pergunto-me o que uma beleza como ela faz num ambiente como este, que em nada combina com a suavidade de suas feições e com o brilho azul de seus pequenos olhos. Ela não volta a lavar os copos. Apóia-se no balcão, olhando para mim. Eu tomo alguns goles de minha cerveja, e retribuo o olhar.
- Por que quer saber? – ela responde com um sorriso. Eu sorrio também. Deixo-a acreditar que estou fascinado e que posso ser facilmente fisgado. – Por que não me diz o seu? - Não vem ao caso. Me diga uma coisa. – Eu ponho a mão no bolso da jaqueta e de lá tiro a foto de Estela. – Já viu esta mulher por aqui? Ela pega a foto e a olha com desinteresse. Depois de um certo tempo a deposita em cima do balcão. - Desculpe, não posso ajudar. Ela é sua garota? - De certa forma. – Guardo a foto no bolso. – Fui contratado para encontrá-la. Ela dá os ombros. Não se importa e não tem vergonha de mostrá-lo. Viro-me de costas para dar uma outra olhada no lugar. Gargalhadas sujas de bêbados ecoam aqui e ali. Reparo que o garçom que não me atendera não está mais lá. Uma porta no fundo do salão que antes estivera fechada agora se encontra escancarada. - Tem certeza de que não a viu, querida? - Foi o que eu disse, não foi? – ela responde, a voz subitamente mais alta. – Se disse que não a vi, não a vi e pronto. - Então está certo. Levanto-me num salto e caminho em direção a porta aberta. Sinto mais olhares sobre mim. Sinto que alguma coisa vai acontecer. À poucos passos da porta, dois homens surgem e me barram a passagem. Um deles segura uma arma apontada para mim. Os dois tem sorrisos idiotas nos lábios. Os dois são criaturas enormes, sacos de banha e músculos. - Aonde pensa que vai, amigo? – pergunta o da arma. – Creio que não tenha negócios aqui. - Procuro uma pessoa. Um amigo me disse que poderia encontrá-la aqui. Aquela belezinha atrás do balcão, no entanto, me disse devo estar procurando no lugar errado. Ela é uma tentação, mas não acredito nela. - Você está incomodando os clientes, amigo – diz o desarmado. – Não gostamos de ser incomodados aqui. - Eu, incomodando? – Olho em volta e ergo a voz: - Alguém aqui está se sentindo incomodado pela minha presença? Hã? Silêncio. - Viram? Ninguém incomodado. O cano da arma toca levemente minha barriga. - Não me faça abrir um buraco em você. – Os sorrisos haviam desaparecido. – Vá embora enquanto ainda pode andar, seu detetivezinho. - Não – diz uma voz atrás de mim. Viro-me e reconheço o garçom que fumava quando cheguei. É um homem gordo e de cara vermelha, com um bigode enorme que quase lhe tampava a boca. Ele segura uma espingarda. Seu semblante é inexpressivo. – Deixem isso comigo, rapazes. A dupla dinâmica se entreolha e lentamente sai do caminho. Sinto o toque da espingarda contra minhas costas. - Andando – diz o barman. Eu obedeço. A porta dá para um corredor escuro que segue adiante. Não há lâmpadas no teto ou nas paredes. A única luz que visível vem de uma porta no fim do corredor, que para onde nós obviamente nos dirigimos. Os dois idiotas do bar caminham pouco atrás do barman. - Então, amigo – falo despreocupadamente -, no que isso vai dar? - Você logo vai saber. Andando. Ocorre-me mais uma pergunta. - Como esses gorilas aí atrás sabiam que sou detetive? - Cale essa boca! – responde um deles, não sei qual. Chegamos a uma sala empoeirada, onde há um sofá velho e um aparelho de televisão. Ao fundo, vejo um outro corredor, bem pequeno. Não consigo ver onde dá pois não há nele qualquer luz. Um dos gorilas fecha a porta. O barman ordena que eles me revistem. Eles acatam sem questionar. Descobrem minha arma e ela me é tirada. Em segundos, estou mais vulnerável que uma criança. - Podem sair – diz o barman. Logo estamos sozinhos. Percebo que está mais relaxado, e que segura a espingarda com menos firmeza. - Foi o Alvinho quem me entregou? - Acho que se eu negar, você não vai acreditar. Era a única possibilidade. Alvinho tinha me dado a dica do Leoni’s depois de termos uma longa e agradável conversa, durante a qual ele perdera os sentidos duas vezes. Cansado de apanhar, ele finalmente confessara onde a mulher estava. Pelo visto, ele guardara algum rancor. Mostrara isso ligando para aqueles macacos providos apenas de músculos e armas. - Se sair dessa, provavelmente vou fazer mais uma visita ao Alvinho. Por trás do bigode, eu percebo um sorriso. - Ela está aqui? – eu pergunto, embora já saiba a resposta. É quando ouvimos um barulho. Parece uma batida numa porta, só que dada com mais força que o normal. Olho para o lado e vejo o pequenino corredor. Já sei o que há no final dele. Uma porta. E atrás desta porta, está o que eu procuro. Percebo que não tenho tempo. Tudo que aquele homem tem de fazer a apertar aquele gatilho e assistir enquanto eu despenco como uma fruta sob forte vento. Sou a única esperança dela. Se algo me acontecer... Eu me lanço com força contra o barman, agarrando-lhe a barriga. Nós dois caímos no sofá, que range ante ao peso. Sinto golpes sendo desferidos contra minhas costas, golpes da coronha da espingarda. Tenho de desarmá-lo já. Minhas mãos caminham vagarosamente até seu pescoço. Os polegares encontram o pomo-de-adão e começam a pressioná-lo. Com força. Ele começa a se mexer e debater, atingindo-me com mais força. Digo a mim mesmo que posso agüentar aquelas coronhadas, que elas não são nada comparadas ao tiro que ele não conseguia me dar devido aos meus cem quilos e a posição em que nos encontrávamos. Ele tenta gritar. Não consegue. Seu corpo precisa de ar, e minhas mãos o mantém fora dele. Passa-se um minuto inteiro. Os golpes vão ficando mais fracos. Minhas costas ardem, e descubro que meus dentes estão cerrados com força. Desvencilho-me de seus braços sem vida e me levanto. A espingarda despenca de suas mãos, caindo no sofá. Minhas mãos tremem, minha respiração demora a se normalizar. Eu vejo espanto e ódio estampados em seus olhos vazios. Pego a espingarda e verifico que está carregada. Ouço mais batidas. Segurando a espingarda, caminho pelo corredor sombrio e descubro a porta. Do outro lado há alguém muito assustado. Alguém que certamente quer sair dali. - Afaste-se, eu vou arrombar – falo em voz alta. As batidas param. Quase posso vê-la afastando-se da porta. – Lá vai! A fechadura cede à primeira investida. Eu recupero o equilíbrio e encontro o interruptor de luz. A lâmpada é acesa. Então a vejo. Suas mãos e pés estão amarrados, sua boca amordaçada. Seus trajes são mínimos. Não há sinal do vestido branco que ela usava quando desaparecera. Eu me aproximo e a desamarro. Ao se ver livre, ela se lança sobre mim num abraço cálido. Eu sinto o calor de seu corpo contra o meu e estremeço. Solto a espingarda e deixo meus braços envolverem seu pequeno corpo. Sua pele é alva como um lírio; seus cabelos, brilhantes como raios de sol. Lágrimas brotam de seus olhos. Ela me aperta como se eu fosse a única coisa no mundo que possuísse. Eu me perco na maciez de sua pele. Ela subitamente se afasta. Nossos olhares se cruzam, quase se tocam. A umidade em seus olhos verdes serve apenas para salientar ainda mais o brilho que deles parte. Sinto sua mão tocar meu rosto. Vejo-a sorrir. Vejo seu rosto aproximar-se do meu. Ouço o som de um trovão quando nossos lábios se tocam. Nós apertamos nossas bocas uma contra a outra. Mais um trovão retumba, este diferente nos demais. Imerso em seus lábios, eu mal sinto a dor. Aos poucos, meu corpo se arqueia. Nossos lábios se separam. Num esforço, consigo olhar por sobre meu ombro, de onde sinto sangue escorrer. Uma dor dilacerante de repente me domina, e cerro os dentes para não gritar. A garçonete está parada no limiar da porta. Consigo ver, antes de cair, que seus lábios me sorriem malevolamente. Uma poça de sangue rapidamente se forma no chão abaixo da mim. Mais lágrimas brotam dos olhos de Estela. Ela se ajoelha ao meu lado. É a primeira vez que choram por mim. Felizmente a bala não atravessou meu corpo indo de encontro ao dela. Pelo menos para aquilo eu tinha servido. Eu não tinha conseguido tirá-la dali. Perdera-me na visão de seu corpo e da imensidão de seu beijo. Eu quero me desculpar por não ter sido capaz, mas as palavras simplesmente não saem. Ela segura minha mão com força. Minha voz engasga. Eu sinto que tudo que acontecer a ela será minha culpa. É a última coisa que sinto antes do apagar das luzes.
- ...nem a primeira nem a segunda vez que ele tentou escapar. Seu estado mental é irreversível. Todos os tratamentos já foram experimentados, mas nenhum surtiu efeito. - Então é verdade o que disseram? Ele tem mesmo múltiplas personalidades?
Dor. Nenhum movimento. Palavras ao longe. - Desta vez ele foi longe demais. Atacou um dos guardas, que mesmo semi-inconsciente conseguiu alertar os outros. Antes de conseguirmos sedá-lo, ele ainda teve tempo asfixiar um dos guardas, que está em estado grave, e roubar-lhe a arma. Uma cama. Estou numa cama. De hospital. Estou sozinho. Minha mente está confusa, meu corpo dormente. Nenhum sinal dela. Nenhum sinal... Uma porta se abre. O doutor entra. Eu o conheço. É um cara legal. Usa um jaleco branco e uma gravata listrada. Me olha e suspira. Eu consigo proferir as únicas palavras que importam: - Onde... Está... Ela? Ele ajeita seus óculos. Tem uma expressão desanimada que eu não entendo. - Ela não existe. Com estas palavras, ele saca algo do bolso. Uma seringa. Sim, se parece com uma. A agulha penetra em minha pele e logo em seguida é retirada. - Descanse. Apenas descanse... Eu fecho os olhos. Sinto meu corpo começar a relaxar. Adormeço lentamente, sentindo que a havia perdido mais uma vez. |
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Porra, muito foda seus contos. Tô começando nessa arte, talvez a gente possa trocar uma idéia. Dê uma olhada no meu blog Rafael - Rusty, 24/10/2008 |
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Parabéns!!! Adorei , você tem um grande talento na escrita... Abração... !!! Felipe, 21/06/2008 |
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Outra das belíssimas maravilhas textuais do amigo Josué. Excelente apresentação temática, abordando traços bem urdidos, uma linguagem acessível arraigada por planos emotivos, em alguns aspectos formais. Com certeza, mais um ótimo trabalho aquisitivo do Beco. Parabéns ao autor também!! Cláudio Quirino, 17/06/2008 |
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Outro conto escrito de forma competente, no estilo noir, que amo. Rosa, 16/06/2008 |
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Boa história, gostei especialmente do final. Vitor Hugo , 16/06/2008 |
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| Obituário |
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