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O Diabo Toca o Sino
Valdeci Garcia

O diabo toca o sino. Toca lá na outra igreja. Aqui na minha igreja não existe sino. Mas tenho que escutar aquele da torre antiga, cuja sombra, nas tardes de sol, tenta abarcar a cidade e tudo o que está à sua volta. E o sino intrometido sempre interrompe minhas pregações. Tento falar mais alto, para que os fiéis não tenham a atenção desviada pelo Diabo, que toca o sino lá naquela maldita igreja. Diabo tocador de sino... Já haviam me falado que ele encontra diversas formas de nos perseguir, de nos prejudicar. Este é somente outro modo de que ele dispõe para tirar as minhas ovelhas do caminho certo, do aprisco que lhes preparei.

 

Tem dia em que se deve morrer para viver.  Quando me trouxeram a jovem, ela veio desacordada.

“Mas quem a deixou dormir?”, perguntei irritado.
            
“Ela desmaiou, pastor, e não acordou por mais que a forçássemos a isto”, respondeu-me o acólito, com voz de quem se desculpa por erro imperdoável.
             
“Ela não pode dar sua vida ao nosso bom Deus sem saber o que faz!”, gritei entre impaciente e enternecido, porque tenho ciência de que tudo o que fazemos neste mundo deve ser consciente; temos que saber a exata proporção de nossos atos.
           
O sacrifício atrasou cerca de cinco minutos para ser concluído. A jovem acordou depois de a mergulharem num tonel de água gelada. Quis gritar, rebelar-se! Coisa de gente ingrata!  O que é uma vida diante de tudo o que Deus nos deu?
           
“Calem a boca dessa ingrata carpideira!” 
           
O sangue da jovem lavou todo o altar, desde a pedra de mármore da base até a espada do anjo vingador. Agora, vem a parte mais difícil, que é separar a cabeça do tronco e dos membros. Difícil para mim, que já tentei cortar uma vez, mas acabei desistindo: deixei para o meu seguidor mais antigo, que tem muita prática nessas secções.
           
Terminado o culto e o sacrifício, meu séquito se encarrega de enterrar o corpo num terreno atrás da igreja. Dia desses passei por lá e verifiquei que já temos um pequeno cemitério no local. Até acredito que esse adubo humano seja de valia para as plantas, porque elas cresceram rapidamente: há um ano, quando comprei este imóvel e fundei a igreja, não havia tantas árvores frutíferas e flores no quintal!
           
Depois que todos retornam às suas casas, tento descansar. Parece que não, mas presidir essas celebrações de quinze em quinze dias me estressa. Está cada vez mais difícil obter ovelhas para o sacrifício santo. Acredito que sejam os ditos tempos modernos, em que as pessoas só pensam no imediatismo, em lucrar, em ser feliz à custa de bobagens materiais. Não, eu não! Penso que Deus nos colocou no mundo para coisas muito maiores, que não passam nem perto dessas bobagens materiais: carros novos, roupas caras, bebidas, drogas, garotas, sexo, etc. O que pode ser mais importante para nós do que nosso bom Deus, quem tudo nos deu e que nada nos pede em troca? Nada!

 

Tem dias em que devemos encontrar pessoas. Tem dias em que as pessoas devem nos encontrar. Encontraram-me hoje: dois policiais apareceram aqui na igreja. Vieram com rodeios, mas eu sabia que eles sabiam; eu sabia o que eles queriam. Trezentos mil dólares para me deixarem em paz com o meu Deus. Eles voltaram para a sua delegacia e me prometeram não aparecer aqui tão cedo.
           
Saí às ruas. Queria respirar ar fresco; pastorear minhas ovelhas. E encontrei o próprio Diabo. Ele vinha arcadinho, com sua velha batina – o burel dos que pretendem passar por santos aos olhos do mundo.  O Diabo que toca o sino todos os dias. Passou por mim e não me reconheceu. Mas eu sei quem ele é: seu cheiro de enxofre disfarçado de naftalina não me engana. Qualquer dia desses farei um pedido especial aos meus servidores: tragam-me o próprio Diabo para o sacrifício. Será um dia especial... Enquanto isso não acontece, deixo o Diabo disfarçado de velhinho ir manquitolando rua afora, acariciando seus fiéis.

 

Tem dias em que devemos fazer a viagem. Viagem rápida. Viagem que pode ser proveitosa para quem a faz. E ser parte do sacrifício a Deus é uma viagem ímpar e lucrativa para quem for escolhido. Pena que as pessoas se desesperam, não entendem a grandiosidade de sua oferta; e não enxergam que o que era sem valor algum (uma vida sem mérito, sem brilho e sem porquê) se transforma em algo grandioso; uma pérola aos olhos do Criador. Assim, sem entender a grande honra que lhe é atribuída; a ovelha, digo, garota do sacrifício de hoje esperneia até chegar ao altar. Já deitada sobre ele, tenta se levantar, grunhindo como uma porca.
           
Quem deixou este louco entrar aqui?!    
           
Ouvi a frase gritada logo à minha frente. No mesmo instante, senti uma estocada no peito. Olhei para os olhos de quem segurava o cabo da faca enterrada em meu coração. Eram olhos demoníacos a sorrir aliviados. Nesse instante, o sino começou a tocar longe, longe, longe...
 
           

Tem dias em que é hora de ver as coisas de cima. E eu estava vendo meu corpo estirado no chão; meus fiéis seguidores saindo correndo da igreja, deixando o meu assassino impunemente a pisar em minha cabeça com o pé direito, enquanto se abaixava e começava a me trucidar com um cutelo; jogando meus pedaços sobre o altar. Vi tudo isto e não senti dor alguma. A única coisa que me incomodou foi uma sombra se aproximando de mim, querendo me levar com ela. Comecei a sofrer grande aflição. Mas algo aliviava o meu sofrimento: o sino, tocado pelo Diabo (ou por Deus?, já não sei mais), a ribombar longe, longe, longe...




 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

       
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Cláudio Quirino, 14/07/2009

Grande Valdeci Garcia! Nesse teu conto explêndido você realmente me nocauteou, amigo. Muito bom mesmo, e acho que a "ousadia" de tuas palavras e idéias - se brincarem - alcançam o nosso imaginário com perfeita sintonia. Parabéns, cara. "Quem deixou este louco entrar aqui?!"
 
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Valdeci Garcia, 06/07/2009

Obrigado, Giselle, pelo seu comentário. Para mim, é uma honra muito grtande estar na mesma sintonia que você! Realmente, eu gosto muito de seus contos; e de seu estilo de narrar! E parabéns pela seleção de seu conto para a antologia do Beco do Crime. Valeu!
 
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Giselle Sato, 02/07/2009

Excelente. A minha cara...Nossa andamos pegando alguma sintonia. Valdeci ler seus contos é sempre um enorme prazer. Não há mais o que dizer: Perfeito.
 
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Josué de Oliveira, 29/06/2009

Valeu, Valdeci.
 
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Valdeci Garcia, 27/06/2009

Obrigado a todos pelos comentários amáveis. Josué, realmente eu tive a intenção deliberada de criticar a postura de alguns "religiosos", que empunham a Bíblia como arma, ou como salvo-conduto para a prática das maiores barbaridades. Porém, não foi minha intenção me referir somente a pastores, ou membros de igrejas evangélicas. Calhou de ser assim no conto. Mas a referência se estende a membros de todas as igrejas, seja ela Católica ou Evangélica ou qualquer outra. Ressalto, no entanto, que nada tenho contra igreja ou religião nenhuma, e que todas elas são compostas, em sua maioria; de mais gente boa e séria do que de pessoas ruins e desonestas.
 
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L.C.Lima, 25/06/2009

Inovador e locupletante. Mesmo se seu nome não estivesse ali, sob o título, nota-se sua cara, ou melhor, seu estilo cada vez mais singular e aprazível nas linhas deste conto. A escolha de tema depois do conto do Pianista foi, para mim,  fantástica. Meus sinceros e admirados cumprimentos.
 
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Ramon Franco, 25/06/2009

Gostei. Uma trama inteligente.
 
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Felipe, 25/06/2009

Muito bom ... muito bom mesmo.
 
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Josué de Oliveira, 25/06/2009

Gostei muito do conto, apesar de (falando agora como cristão protestante) enxergar no texto a imagem daqueles que, munidos de uma Bíblia e um microfone, espalham mensagens tudo menos cristãs por aí. Embora não cheguem ao nível do "pastor" do conto (sacrificar pessoas), praticam um mal incrível ao desviar as pessoas do caminho certo. Não ser se foi intenção do Valdeci fazer uma metáfora (estou inclinado a acreditar que sim), mas, de todo modo, foi como me senti ao ler este ótimo texto.
 
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Andre Esteves, 25/06/2009

Já que o SIDNEY foi mais rápido e surrupiou minha ideia de comentário, resta dizer que é um ótimo conto, como sempre.
 
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Beto Guimarães, 25/06/2009

A barca de caronte estará esperando por ele, ou estou enganado? Mais um excelente conto do Valdeci.
 
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Justi, 25/06/2009

Muito bom Simples e direto. Parabéns Garcia
 
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Sidney, 24/06/2009

"Tem dias em que é ótimo ler um conto"...Logo, hoje foi excelente!
 
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