Inicial
Desde 2007!
Entre para o crime!    Matadores    Imprensa    Eventos    B. de Ocorrência    O Mistério da 13ª Letra
 Livros
 Filmes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 







































Espelhos
 Andre Esteves

— Alô?

Monossílaba. Três letras. Como pôde ter feito minha carne grudar nos ossos? Como pôde ter transformado minha língua em pedra, entupindo-me a boca, como pôde ter feito o fone escorregar em meus dedos?

Não sou mas moça; do alto dos meus setenta anos, não há sentido em mentir para ninguém - nem para mim mesma. Pouca coisa importa quando seus seios são tão flácidos que lembram bexigas de aniversário vazias. Procuro meu rosto no espelho. É difícil de acreditar, mas por anos atraiu olhares masculinos, cheios de desejo. Agora, só vejo uma surrada esponja redonda. Uma maldita esponja cor de pele com sulcos profundos em toda a extensão, produzidos pela unha afiada de um gato – este é o meu odioso rosto.

Decrepitude. Dor. Impotência. Quando se chega ao fundo do poço da vida, não há espaço para amor-próprio – ele se foi há muito, no primeiro bote. Nada de subterfúgios, eufemismos. Da decadência nasce algo considerado bom por muitos: a verdade. Não a verdade por virtude, mas a verdade, pura e simplesmente, pela desnecessidade da mentira.

Então, não podia dizer que fora admiração a resposta do meu corpo ao singelo “alô”, dito em voz forte, ou mesmo a saudade, ou até a surpresa. Não. Fora uma emoção diferente, crua. Óbvia.

Fora o ódio.

Ódio que logo seria extirpado.

Não tomei precauções, porque as consequências do meu ato não me preocupavam. Cadeia? Que era cadeia, para quem estava preso num corpo como o meu? Que era a prisão, para quem vivera sempre na miséria, naquela casa imunda?

Não, eu teria meu momento. O ápice de uma existência insignificante.

Meu plano foi traçado com cuidado. Nada apressado. 50 gramas de trional, pagos com o seguro de vida de Gérson. Um alicate. Uma pequena faca afiada. Uma garrafa de álcool. Tudo que eu precisava.

Fora no próprio funeral de Gérson que surgira. Uma prima estúpida que não via desde o dia do meu casamento, há quarenta e tantos anos, veio me prestar as condolências. Em meio a sua fala inútil e cacete, dissera um nome que despertara minha atenção.

— Você falou Carmem?

Falara. Carmem estava morando em uma casa de campo, isolada. Sem a menor cerimônia, passou-me o endereço e o telefone assim que eu pedi. Continuei a cumprir o insuportável protocolo do enterro, mas como autônoma. Carmem. Eu acompanhara sua carreira pelos jornas e pela TV. Fizera fortuna como presidente de uma fábrica de pneus. Instalara filiais em outros países. Dava festas concorridas, com artistas, políticos. Tinha carros, mansões e até um avião. Apontada por muitos como o melhor exemplo da mulher empresária, tão eficiente quanto um homem, em uma época em que “trabalhar fora”, para uma mulher, era sinônimo de secretária ou recepcionista. Todos a viam como uma pessoa linda, inteligente, detentora de tudo que a vida pode proporcionar de melhor. Embora nunca tivéssemos trocado uma palavra sobre ao assunto, era bem provável que Gérson também a visse assim.

Não Eu. Eu a via como realmente era.

50 gramas de trional. O médico que me vendeu falou que 10 é o bastante para um ser humano. Mas fiz questão de testar. Juntei 5 gramas em um copo com dois dedos de água e puxei o líquido com uma seringa. Abri a gaiola do papagaio, que meu filho trouxera de uma viagem. Não me preocupei, porque ele agora mora no Canadá, trabalhando como peão de obra, e dificilmente terá oportunidade para notar a falta do animal. Prendi seu bico com dedos enrugados, mas ainda rígidos, e injetei o líquido, vendo-o engasgar. Tremou violentamente por alguns segundos, mas não pôde produzir nenhum som. Tombou no fundo da gaiola.

Estava totalmente imóvel, com exceção dos olhos, que dançavam desesperados nas órbitas. Não podia mover um só músculo, como o médico me dissera. Mas tinha os sentidos preservados. Isso logo ficou claro.

Um alicate. Uma pequena faca afiada. Uma garrafa de álcool. Os olhos do animal gritavam.

Terminado o serviço, liguei para Carmem. A voz era a mesma de quarenta anos atrás. A mesma autoridade, a mesma prepotência – e a mesma maldita eficiência, até mesmo na insignificância de um alô. Felizmente, ela pareceu também pasmada ao saber que era eu. Ficamos algum tempo em silêncio, dizendo muito mais do que qualquer coisa que pudéssemos expressar com a voz.

Carmem é minha prima. Nosso avô havia fundado a empresa de pneus, e nós duas começamos, com quase a mesma idade, a trabalhar para ele. Gérson era um dos empregados, forte, viril, esbanjando músculos enquanto operava as pesadas máquinas. Não precisava ser gênio para adivinhar que ficamos loucas por ele. Somente o estúpido do meu avô não via isso.

Como disse, não tenho o mais o privilégio vergonha; então posso contar, sem rodeios, que Carmem agradou mais ao rapaz, a princípio. E eu, não querendo ficar para trás, não tive problemas em ir além, proporcionar mais do que ela.

Três meses depois não conseguia mais convencer a ninguém que minha barriga se devia aos doces fora de hora, explicação usual também para os enjoos frequentes. A ordem geral era interromper o mais rápido possível. Lembro do meu avô salivando, enlouquecido, quando falei em casamento. A figura de um lorde Inglês afrontado em sua própria casa, por seu próprio sangue. Além de pobre, Gérson era negro, algo que que meu avô jamais poderia aceitar.

Fui em frente. Sai da rica mansão da minha família somente com a roupa do corpo. E, neste momento, lá estava Carmem, finalmente revelada. Sorria levemente, não um gesto encorajador, mas o sorriso da cobra para o rato, quando o encurrá-la após té-lo enganado. Eu me casei com Gérson e tive uma vida miserável como lavadeira. Carmem ganhou a presidência da empresa e uma vida de luxo, de glamour.

Não havia justiça. Vendo-a nas colunas sociais, eu pensava que um dia devolveria aquele sorriso. Mesmo nos últimos anos, quando ela se afastara da empresa e já não aparecia tanto na mídia, eu a mantinha acesa em minha mente. A cada roupa lavada, a cada vez que pegava um ônibus lotado. Eu teria justiça, ainda que tardia.

Não precisei falar muito. Carmem aquiesceu a ideia do encontro. — Pode ser na minha casa? — indagou ela. Claro que podia, sendo tão afastada de todos. Tive que segurar a ansiedade para não propor ir naquele mesmo dia. Ficou acertado para dali a uma semana, tempo que pareceu durar mais de um ano. Preparei meticulosamente o material na véspera, como se fosse um eletricista deixando pronta as ferramentas para um dia de trabalho. Coloquei tudo numa bolsa de ombro de lona, misturado com diversos cosméticos. Somente o pacotinho com o trional coloquei no sutiã, colado ao seio esquerdo.

O lugar era exatamente como descrevera a mulher no enterro: amplo jardim, seguido de uma residência de dois andares revestidos de tijolos vermelhos, estilo colonial. De um lado e do outro pomares e jardins, a perder de vista. Não havia, naquela rua, nenhuma outra construção.

Toquei a campainha e uma moça miúda veio atender. Carmem tinha diversos funcionários naquela pequena fazenda, mas apenas esta moça trabalhava diariamente na casa, segundo minha fonte. Achei que não seria difícil ficar com Carmem a sós, afinal eramos parentes e a muito não nos víamos. Mas, de qualquer forma, havia trional suficiente para a empregada também.

Entramos. A moça subiu para o segundo andar e eu fui atrás, com enorme dificuldade, pois perdi parte do pé direito devido à diabete – doença que levou também a visão do meu olho esquerdo, deixando-o com uma coloração cinzenta. Não, eu não sou bonita. Nunca tive dinheiro, tempo ou mesmo conhecimento para cuidar da saúde como devia, e colhi os frutos na velhice. A verdadeira culpada, no entanto, estava em algum lugar daquele casarão de piso de madeira e decoração suntuosa. Avancei com esforço redobrado, vencendo os degraus.

A moça bateu em uma porta, ao que parecia do quarto de Carmem. Uma voz enérgica, para mim inconfundível, ordenou que entrasse. A empregada franqueou-me a entrada e bateu a porta atrás de mim, deixando-me com a outra pessoa no aposento.

Era uma velha. Sua pele parecia querer escapar, escorrendo, dos ossos do rosto, formando enorme bolsas pendendo no ar por baixo do queixo. Lembrava, mas do que tudo, um buldogue, mas um buldogue bem velho. Estava em uma cadeira de rodas, e seu braço direito caía sobre o colo, não descansando, mas tombado, como se não tivesse vida e servisse apenas de enfeite. Era evidente o inchaço, principalmente da mão, que era o dobro da outra, os dedos tão grossos que podiam ser de luvas cirúrgicas repletas de água.

O que chamava mais atenção, no entanto, era os detalhes do rosto. Quando eu pensava em Carmem, até momentos atrás, o que vinha a mente era seu rosto jovem. Sempre tivera linhas expressivas, olhar vivaz e uma linda boca e dentes, o que ficava mais marcado ainda quando sorria. Agora, as pálpebras caídas mostravam o vermelho por trás delas, onde descansavam os globos inchados e amarelados. E, quando entrei, deu um sorriso, um sorriso de um lado só, porque a parte da direita manteve a linha enquanto a da esquerda se abriu como pôde.

Demoramos a falar. O quarto era grande, e na parede em frente a cama havia uma mesa e algumas cadeiras, com um bule de café e biscoitos. Apenas com a mão direita, ela colocou café nas duas xícaras e bebemos juntas. Não falamos sobre o passado. Ela contou que havia sofrido um derrame há dois anos, e estava paralisada do lado esquerdo. Eu pensei em contar sobre meu filho, suas viagens ao exterior, mas acabei apenas deixando-a falar. Ela não tinha filhos, não havia se casado. Era fácil constatar isso pela ausência de fotos no quarto e nos outros lugares da casa por onde eu havia passado.

Após uns vinte minutos, disse que tinha de ir embora. Apertei-lhe a mão boa, mas ainda assim trêmula, e sai o mais rápido possível. Assim que virei a esquina da rua, joguei a bolsa de lona em um terreno baldio, onde também despejei o trional.

No ônibus, voltando para casa, pensei no que seria vingança. E procurei disfarçar, da moça ao meu lado, o choro que teimava em brotar do meu peito.

***

Carmem aguardava ansiosa a entrada da prima. Mas não foi como esperava. Fitou sua pele castigada, suas mãos grossas, a forma de puxar a perna direita, como se andasse sobre um cotoco de madeira. Deu especial atenção ao olho cego, parado, sem vida e cinza. Aguardou a prima ir embora e puxou, com a mão boa, um pacotinho do bolso. Havia uma espécie de pó nele, mas a embalagem ainda estava lacrada. Empurrou, com esforço, a cadeira de rodas até a janela e abriu o pacote. Deixou o vento espalhar o pó e secar suas lágrimas.


 
 
Frete grátis para todo o Brasil!
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

       
  _____________________________________________  
       
   
Giselle natsu Sato, 12/08/2009

Perfeito. Acabei de reler e percebi mais detalhes. Conto bom é assim...leio e releio.
 
    _____________________________________________  
       
   
Alexandre Gazineo, 11/08/2009

Não existe uma estória (ou História) que seja única. Lewis Carrol nos instiga a pensar assim quando faz a sua emblemática Alice penetrar no mundo dos espelhos. Mestre André trabalha, com invejável perfeição, a duplicidade do ser e do querer, duplicando, em um jogo metalinguistico excelente, as possibilidades do seu próprio texto. Obra prima!
 
    _____________________________________________  
       
   
Renata, 09/08/2009

Maravilhoso. Neste espelho, acredito que muitos dos que leram este conto viram o seu reflexo, pois guardamos mágoas que com o tempo percebemos o quanto são pequenas mediante o desenrolar da vida. Parabéns Andre pelo conto.
 
    _____________________________________________  
       
   
Angela Oiticica, 09/08/2009

Ótimo texto. O final torna o conto bem interessante mesmo.
 
    _____________________________________________  
       
   
Andre Esteves, 02/08/2009

Obrigado a todos pelo incentivo e apoio. Não é querendo enaltecer minha própria prole, mas cada vez que abro uma página do Beco do Crime ( qualquer texto, não só os meus) e leio os comentários, sempre me bate um enorme orgulho. Quem falou que a leitura não tem vez em nosso país é maluco. vocês me provam isso, todo dia.

Um livro de contos? Acredita, Oscar, que até ler seu comentário eu nunca tinha pensado em publicar um livro só com meus contos? Mas não sei, é uma ideia. Talvez, mas bem para o futuro. Por enquanto, estou batalhando as histórias longas; o meu terceiro livro está bem adiantado, espero que seja publicado no meio do ano que vem.

Tem mais, contudo. Em virtude da participação na Bienal aqui do Rio, é bem capaz de surgir uma surpresa por aí...

Grande abraço a todos.
 
    _____________________________________________  
       
   
Oscar Bessi, 02/08/2009

Genial. Qualquer observação, seria apenas repetir o que já foi dito pelos demais. Então, pergunto, como um leitor que acaba de devorar mais um romance, e ficou com gostinho de quero mais: quando vem o livro de contos de Andre Esteves? Abraço!
 
    _____________________________________________  
       
   
Alexandre Coslei, 31/07/2009

Genial, André! Fechamento digno de um grande Maestro das palavras. Sensacional!
 
    _____________________________________________  
       
   
Valdeci Garcia, 30/07/2009

Corroboro tudo o que disseram os demais leitores. Enfim, trata-se de um texto de mestre; escrito pelo Mestre!
 
    _____________________________________________  
       
   
Cláudio Quirino, 30/07/2009

O Andre Esteves detona em todos os sentidos quando o assunto é escrever contos de cunho policial. Ainda mais quando se fala em finais surpreendentes. Texto claro, conciso e com idéias bem alinhadas. Parabéns!
 
    _____________________________________________  
       
   
Beto Guimarães, 29/07/2009

Muito bom, com um final inesperado e inteligente. Parabéns ao Andre por mais um excelente conto.
 
    _____________________________________________  
       
   
Fabiane Guimarães, 29/07/2009

Impressionante! Dá margem para todo o tipo de reflexão.
 
    _____________________________________________  
       
   
Ademir, 28/07/2009

Emocionante e surpreendente. O único defeito do Andre é demorar para postar seus contos!
 
    _____________________________________________  
       
   
Denise, 28/07/2009

Faço coro. Muito inteligente.
 
    _____________________________________________  
       
   
Rosa, 28/07/2009

Do André, não se poderia esperar outra coisa do que um texto bem elaborado e interessante. Diz muito mais do que está escrito, acho que é o conto mais profundo que já li aqui no site. Ainda assim, muito gostoso de ler. Gostei muito das analogias, perfeitas.
 
    _____________________________________________  
       
   
Josué de Oliveira, 27/07/2009

O texto é permeado por uma tensão crescente, e a expectativa aumenta a cada linha. O encontro das duas mulheres é o ápice, e justifica perfeitamente a escolha do título do conto. O Andre constrói uma narrativa sobre vingança e a verdadeira felicidade, sem se descuidar do aspecto clássico do estilo policial: a reviravolta
 
    _____________________________________________  
       
   
Cisticerco, 27/07/2009

Fantástico. Gosto de textos com duplas visões.
 
    _____________________________________________  
       
     
 
Comente e envie sua nota:
                 
     
       
 

Nome:

E-Mail:
    (Só será mostrado se houver autorização expressa).

Comentário: 

          

1

2

3

4

5

 
                       
 
Receba as atualizações do Beco em seu e-mail (apenas um por mês!). Clique aqui.       
BECO DO CRIME ® todos os direitos reservados