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O Olhar do Corvo
                                            Valdeci Garcia

A Delegada Calcante acordou com um corvo grasnando na janela do quarto. A lua sobre a nesga do telhado na moldura da cortina esvoaçante (soprava um ventinho gelado, daqueles que assoviam nas cumeeiras) dava à ave uma aparência fantasmagórica, diria surrealista. Tomou um susto danado, porque se tratava do mesmo corvo com quem estivera sonhando até então. Forçou o corpanzil para se levantar da cama. O colchão de molas gemeu sob quase cento e oitenta quilos. Ela, então, sentiu um cheiro de rosas no ar. Lembrou-se de que não estava em sua cama, mas numa cama de hotel, onde fora forçada a pernoitar em razão da viagem que empreendia de Ranarrana à cidade em que nascera, para resolver um problema de família.
           
Depois de se levantar a muito custo, a Delegada Calcante caminhou pé ante pé (muito levemente para alguém de seu tamanho) até perto do corvo. Este não se assustou. Pareceu querer ficar o mais próximo possível da delegada de polícia, que estendeu, vacilante, os dedos gordos, querendo tocar a ave e se certificar de que não se tratava somente de uma visão noturna. O corvo grasnou, deu uns saltinhos para o meio do telhado, e olhou para trás, como a pedir que ela o seguisse. Ela pensou em saltar a janela e caminhar pelo telhado, na tentativa de seguir a ave, que, agora, afastava-se rapidamente pelas telhas antigas. Antes que tomasse uma atitude precipitada, a Delegada Calcante pensou – corretamente, aliás – que o telhado não aguentaria o seu peso; e ela não era mais nenhuma criança, para ficar se equilibrando sobre telhas quebradiças, tal qual fizera São Francisco de Assis quando tentara agarrar um passarinho lesto no alto de sua casa. O corvo a olhou mais uma vez e estacou no limite do telhado, esperando-a.
           
A Delegada Calcante afastou-se da janela e quis abrir a porta do quarto e se lançar à rua: estava decidida a seguir o corvo, fosse para onde quer que ele fosse. Seu instinto de policial lhe dizia que se iniciava uma grande aventura. Ela sabia que o instinto quase nunca a enganava. Por isto, chegou a tocar a maçaneta, mas lembrou-se de que estava somente de pijama. Sustou a ação: não queria se arriscar a passar por ridícula na rua, vestida de pijama de coraçõezinhos vermelhos. Abriu a porta do guarda-roupa e tirou de lá uma calça preta de moletom, uma camisa vermelha de seda e uma blusa jeans de zíper. Vestiu-se às pressas. Abriu a porta do quarto e desceu a rangente escada de madeira.
           
– Vai sair a esta hora, doutora? – perguntou-lhe o dono do hotel, sentado atrás do balcão do lobby
           
– Humpty! – fez a Delegada Calcante, passando pelo balcão rapidamente; o que não a impediu de observar que o dono do hotel não tinha o dedo anular da mão direita (coisa que não havia visto quando chegara para se hospedar aquela noite).

Já na rua deserta, a Delegada Calcante olhou para o alto do telhado, e verificou que o corvo ainda estava lá esperando por ela. Ao vê-la, o corvo voou para a rua e pousou num fio elétrico logo adiante. A delegada passou pelo fusca azul-calcinha no pequeno estacionamento do hotel e se aproximou do corvo, que voou novamente alguns metros mais à frente. A Delegada Calcante teve então certeza de que a ave a guiava para algum lugar. E simplesmente a seguiu pela noite silenciosa da cidadezinha.
           
Depois de caminhar por mais de meia hora, a Delegada Calcante percebeu que o corvo estacara à beira da estrada deserta e pedregosa. Ela olhou para baixo, e pôde ver as ondas do mar bravio quebrando com furor nas pedras. Estava à beira de um extenso desfiladeiro de cerca de sessenta metros de altura – e concluiu, acertadamente, que não seria nada bom para a sua saúde se caísse dali. No mais, ela tinha medo de altura; e a simples ideia de chegar à beira do barranco já a fizera sentir um calafrio terrível na espinha, ao mesmo tempo em que os pelos de seus braços se eriçaram.
           
– Pô, me fez andar tanto para dar de cara com um buraco! – zangou-se com o corvo, que a continuava olhando, como se lhe dissesse: “Preste atenção, sua gorda burra! Olhe um pouquinho mais de lado!”
           
Nesse instante, o vento tornou-se mais forte e empurrou uma nuvem espessa que tapava a luz do luar. E a Delegada Calcante viu, então, numa imensa pedra cerca de um metro abaixo da beirada do precipício; um corpo estirado, quase a se precipitar em definitivo para as ondas terríveis lá embaixo. Encheu-se de coragem – em nome da profissão – e, com cuidado, desceu até a pedra. Verificou que se tratava do corpo de uma mulher (as roupas e os cabelos compridos da caveira lhe disseram isto). Analisando com vagar, a Delegada Calcante concluiu que aquele corpo (ou o que restara dele) estava ali há uns três anos. Observou, também, um afundamento no lado direito da fronte da vítima, o que comprovava que ela havia sido atingida por algum instrumento contundente (talvez, uma pedra) antes de ser jogada ali. Na verdade, tudo indicava que quem fizera aquilo pensava ter jogado a mulher ao mar, não contando com a existência daquela pedra, que serviu de amparo ao corpo. Talvez na ânsia de abandonar logo o local do crime; nem tenha olhado para verificar se realmente a vítima se estatelara nas pedras lá embaixo e fora levada pelas ondas.
           
Olhando entre os dentes do cadáver, a Delegada Calcante viu algo a brilhar com maior ou menor intensidade, conforme a luz do luar incidia sobre a face descarnada. Neste instante, o corvo grasnou mais forte – era um grasnar fino e longo, igual a um gemido feminino. A delegada olhou para a ave, que agora tinha um olhar muito claro e leve, como se toda a dor que a atormentava tivesse esvaído de repente. O corvo voou abismo afora, e chocou-se com o mar lá embaixo, desaparecendo nas ondas escuras e nervosas.  
           
Voltando para o hotel, a Delegada Calcante pediu permissão ao antipático proprietário do estabelecimento para usar o telefone. O homem aquiesceu, deixando claro, porém, que o telefonema seria cobrado quando do fechamento da diária.
             
– Saia – rosnou a Delegada Calcante ao homem xereta, que se plantara ao seu lado, para escutar o que ela iria falar. Ele quis objetar, dizer que ele era o dono do hotel, e que hóspede nenhum lhe podia dar ordem naquele local, muito menos uma mulher esquisita como aquela, eticetera, eticetera, eticetera. No entanto, foi demovido de seu intento, quando deu com o olhar fixo da delegada de polícia sobre ele. “Melhor não teimar com alguém tão grande...”, pensou, e foi para o jardim olhar a lua.

O sol veio, e trouxe com ele uma equipe da polícia técnica de Ranarrana, dois policiais militares e o investigador Kadu, que pensou em abraçar a Delegada Calcante, para lhe dizer que estava feliz por revê-la, mas resolveu frear seu instinto, uma vez que a Delegada Calcante se limitou a olhá-lo e – sem demonstrar qualquer afeto ou alegria – a lhe dizer: “Demorou...”.
           
A movimentação diferente na cidadezinha chamou a atenção do povo. Assim, tão logo a equipe chegou ao local do encontro do corpo; a multidão também acorreu para lá; de modo que uma grande plateia aplaudiu quando a Delegada Calcante, o investigador Kadu e os peritos saltaram para a pedra onde estava o cadáver. O dono do hotel também estava lá: uma vez que a “mulher gorda”, como dizia, era a sua única hóspede naquela ocasião; e ele não perderia nada se fechasse o hotel por algumas horas.
           
Alguns minutos depois de haver pulado da borda do barranco sobre a pedra, a Delegada Calcante, com extrema agilidade (inacreditável para alguém de seu tamanho), saltou para a estrada novamente. Aproximou-se da multidão, que a olhava extasiada, principalmente por causa de seu tamanho. Caminhou de cabeça baixa por alguns segundos, e estacou diante do dono do hotel.            
           
– Qual o nome do Senhor? – perguntou ao homenzinho. Ele, então, abrindo um sorriso de dentes irregulares, olhou para a multidão, como a pedir apoio, e respondeu com uma voz inesperadamente aguda:
           
– O nome do Senhor?! Você não sabe o nome do Senhor?! É Jesus Cristo! É Jesus Cristo!...
           
Antes que tivesse tempo de rir da própria piada, tomou um tabefe no ouvido, que o fez rolar na poeira. Viu-se, de repente, aos pés da delegada de polícia, e sentiu-se como se fora um ratinho prestes a ser pisoteado por uma elefanta raivosa. – Meu nome é Valdemar! Valdemaaaaar!... – gritou com todo o ar de seus pulmões, para não correr o risco de a sua agressora não o ouvir e repetir a pancada.
           
– Está preso, Valdemar – disse-lhe a Delegada Calcante, com um sorriso sardônico nos lábios finos. – A propósito, achei seu dedo e seu anel, com seu nome gravado no aro sob a pedra preciosa; na boca da morta. Mas não posso devolvê-los agora, porque farão parte do processo criminal que o Senhor, que não é Jesus Cristo, responderá pelo assassinato desta mulher.
           
O homenzinho ficou boquiaberto, mas compreendeu tudo de repente; e não esboçou reação ao ser algemado pelo investigador Kadu e colocado pelos policiais militares no banco traseiro da viatura da PM.
           
Naquele mesmo dia o preso confessou haver sido noivo da morta, que se chamava Rosa Campos. Disse que, quando ela engravidou depois de alguns meses de noivado, ele resolveu que não pretendia se casar, e muito menos pagar pensão alimentícia a filho nenhum. Por isto, chamou a mulher para passear naquele lugar ermo. Quando chegaram ao lado do precipício, ele a agarrou para jogá-la lá embaixo. Ela, prevendo a morte próxima; lutou para se manter viva. Já à beira do barranco, numa última tentativa de não morrer; abocanhou o dedo anular de seu agressor. Mordeu-o com tanta força, que o acabou por arrancar com aliança e tudo. Com um urro de dor, o assassino, com a mão esquerda, conseguiu alcançar uma pedra e, com ela, atingir a fronte da mulher, no lado direito. Desmaiada, ou talvez já morta com a pedrada na cabeça, ela foi jogada por ele no precipício. Como sangrava muito, ele se afastou do local do crime sem se certificar se o corpo havia caído mesmo no abismo. Foi seu grande erro.

Ao partir de volta para Ranarrana, o investigador Kadu se aproximou da Delegada Calcante para lhe dizer que não precisava se preocupar, porque o preso estava em boas mãos. Ela podia seguir sua viagem tranquilamente, porque a delegacia de polícia estaria em ordem quando ela voltasse: da mesma forma como ela a havia deixado. Vendo a delegada entrar no fusca azul-calcinha (que reclamou do peso num gemido de aço) e se ajeitar como podia (a barriga protusa apertada contra o volante); ele teve vontade de lhe dizer que seria um prazer muito grande para ele fazer com ela aquela viagem. Porém, resolveu calar, e dar-se por satisfeito de poder observá-la a mastigar ruidosamente uma barra de chocolate e a suar como se estivera numa sauna. Para ele; já não existia mulher mais importante no mundo...
           

– Vê se presta atenção na estrada de volta! Não vai fazer nenhuma burrada, senão lhe quebro todo quando retornar! – gritou-lhe a Delegada Calcante, tentando fazer cara de zangada; talvez adivinhando o que ia no pensamento e no coração do rapaz. Depois, acelerou. O fusca azul-calcinha gemeu novamente, vacilou, e, parecendo se conformar com sua sina; ganhou forças, as rodinhas se endireitaram; e ele se perdeu na poeira da estrada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

       
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Iris Padovan, 22/07/2009

Este é conto maravilhoso muito bom de ler, do começo ao fim, tem graça e carisma foi a meu primeiro contato com a delegada Cavalcante e adorei. Meus parabéns Valdeci.
 
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Arão Filho, 14/07/2009

Cara, voce é um Mestre por aqui! Um texto que aprisionou a minha atenção até o fim. Por que não estás mais no RL? Obrigado pela oferta do livro. Quero muito ler o seu trabalho. Um abração!
 
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Filipe, 25/06/2009

Muito bom mesmo!!! Gostei muito.

 
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Alexandre Coslei, 23/06/2009

Um texto de mestre!

 
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Ramon Franco, 18/06/2009

Divertido, é a minha primeira leitura da Doutora Calcante. Gostei desta personagem.Meus parabéns para o autor.

 
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Alexandre Gazineo, 04/06/2009

Não é fácil fazer humor em um texto policial. Mesmo os grandes autores do gênero não ousaram muito. Valdeci assume arriscada empreitada e nos presenteia com a antológica Calcante. Dia desses o Gomes vai tomar uma carona no Fusca azul-calcinha (será que cabe?) e desvendar um crime com a peso-pesado.Valeu, Valdeci. pelo bom texto, pela originalidade e pelo bom humor.

 
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Valdeci Garcia, 30/05/2009

Obrigado a todos, sem exceção, pelo carinho demonstrado à Delegada Calcante. Ops! Vou sair de fininho, porque ela está chegando aqui para agradecer também!

 
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Giselle Sato, 26/05/2009

Não tem mais o que elogiar... todos já disseram o que eu penso... Esta personagem é uma fofa querida e muito divertida. Tomou forma e agora respira livremene por aí graças ao nosso talentoso Valdeci. Só resta aguardar mais uma aventura. Parabéns!

 
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Renato Cassaro, 25/05/2009

Muito bom e divertido de se ler!

 
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L.C.Lima, 25/05/2009

Ando sem tempo para com calma ler os textos do Beco. Mas quando vi que se tratava da delegada calcante, fui obrigado a parar tudo. Excelente história, como sempre. Não vou me surpreender se daqui a pouco a ilustríssima Delegada ganhar uma comunidade no orkut.

 
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Valdeci Garcia, 25/05/2009

Obrigado, Andre, Josué e Cláudio. Confesso que me divirto muito escrevendo as aventuras da Delegada Calcante. E quanto mais escrevo suas histórias, ela vai se tornando real para mim; a ponto de eu esperar encontrá-la qualquer dia numa dessas esquinas, ou na churrascaria da esquina. Foi uma personagem criada especialmente para o Beco. Parafraseando o Andre: Eita filha que só me dá alegria!

 
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Cláudio Quirino, 25/05/2009

Sou muito fã do Valdeci - como ele já o sabe - e também da Delegada Carlcante que demonstra um humor a mais a incrementar no Beco do Crime. Novamente, texto incrível e inteligentemente escrito. Parabéns!

 
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Andre Esteves, 25/05/2009

E a doce e fofa Calcante ataca novamente! Como bem ressaltado pelo Josué, todas suas histórias são muito engraçadas, super agradáveis de ler e imagino que também de escrever.  São o "alívio cômico" perfeito para o Beco.

 

Pode vir com mais Calcante, Valdeci; se for necessário, a gente alarga o Beco para que a ilustre autoridade caiba, ops, seja instalada com todo o conforto que merece.
 
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Josué de Oliveira, 25/05/2009

Os contos do Valdeci protagonizados pela Delegada Calcante são sempre muitíssimo divertidos.
 
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