Ainda não leu o Mistério da 13ª Letra? Está demitido!
Apresentador de um programa de televisão, amigo do autor

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                                     por Denise Ravizzoni





7h – Acordei com a língua pastosa, meio que grudada no céu da boca. A garganta está apertada, raspando. Deve ser alguma infecção, alguma invasão de bactérias, alguma “ite”, tipo faringite, laringite, sei lá. Ou o resultado dos gritos que acompanham os pesadelos. Esforço. É preciso levantar, é preciso ir em frente. Longo dia, muitas coisas, nenhuma vontade. Padeço do mal moderno de ter muitas atividades para preencher o tempo por puro medo de não ter nada para fazer. Parar e pensar representa perigo.

9h – Já estou na rua há um longo tempo e não lembro bem para onde preciso ir. Dirijo a esmo. Se me olharem de fora, dirão:

— Lá vai aquela moça, cabelo arrumado, blusa branca, óculos escuros, carro caro. Deve ser feliz, plenamente segura dos movimentos que faz para guiar. O retrato da independência.

Por dentro, eu grito. Estou em pânico. Aos poucos vou recobrando a calma e seguindo o caminho de sempre, meio no piloto-automático. O carro parece me levar sozinho para o trabalho. Vou chegar atrasada, precisar inventar uma desculpa, falar com as pessoas. Tiro o meu melhor personagem de dentro de mim mesma e visto como se fosse uma luva de borracha. Começa a garoar sobre a cidade.

10h30min – O escritório está calmo. Visto o casaco preto que compõe o meu traje, um tipo de tailleur com pequenas riscas brancas verticais, um clássico da moda. Sou diretora e preciso manter a compostura. O entregador vem trazer flores em nome dos colegas e do presidente da companhia. Recebo as flores sem sorrir e agradeço de um jeito discreto. São bonitas, mas lembram minha dor. Apesar de tudo, sinto uma imensa dor, e é real. É meu primeiro dia de trabalho depois do acidente e da licença de um mês. Sou uma jovem viúva agora.

14h – Passei pelo teste do almoço. Conversei com o grupo normalmente. Sem muita animação, mas isso já era esperado. O macarrão japonês no meu prato lembrou vagamente uma aglomeração de vermezinhos brancos. Aleguei não ter muita fome, o que era verdade, e comi somente os legumes. Bebi uns goles de saquê para agüentar a tarde. Viver com um fantasma émais difícil do que parece.

17h – Não quero mais trabalhar hoje. Para o primeiro dia está mais do quebom. Recolho as coisas com calma e coloco na pasta. Antes de sair, paro para olhar o porta-retrato sobre o aparador. Na foto, estamos sorrindo numa praia do México. Ele parece feliz. Eu pareço feliz. As coisas, definitivamente, não são o que aparentam. Afinal, eu pareço inocente.

20h – Banho tomado, casa arrumada. Sem recados na secretária eletrônica. Agradeço por isso. Ninguém me pergunta mais se quero sair para espairecer. Não desejo espairecer. Cansei. Toma conta de mim a sensação de dever cumprido. Não há outra coisa a fazer. Termino o bilhete para a empregada, que deve chegar pela manhã. Escrevo em letras grandes, redondas, bem legíveis. Não quero enganos. Peço que avise ao mundo que não houve acidente algum. Eu planejei, eu quis fazer e fiz. Eu criei o espectro e agora devo ir de encontro a ele. Deito calma, branca, leve. Apago a luz e vou deixando o sono me tomar. O sono. Muito sono. Sono pesado e eterno que somente duas caixas de comprimidos podem oferecer.

 

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Uau! Esse conto é uma pancada na cabeça, muito bem trabalhado. Denise tem um talento todo especial, toda a dor colocada pouco a pouco de forma magistral. Quero ler mais algumas páginas desse diário. Muito bom Denise. Parabéns!

Maristela, 09/02/2009
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Ótimo.

Beto, 01/02/2009
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Esse conto é realmente demais, muito sutil e engenhosa a forma como a trama foi construída. Para mim, o melhor conto da Denise.

Roberto, 14/01/2009
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Uuuuuuuuuaaaaaauuuuuuuuu!!!! Surpreendente, um dos contos mais supreendentes do Beco.

Igor Firmino, 14/11/2008
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Adorei esta lenda, deveria existir mais lendas assim, amei.

Lidiane, 25/10/2008
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Adorei! Tive uma tarefa de escola e confesso que vou até usar este conto nela!!!! Muito legal.

Clarinha, 20/10/2008
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Com uma narrativa precisa e concisa a autora consegue conduzir o leitor a vivenciar, juntamente com a personagem,o drama da perda de um ente querido. A expectativa criada com inteligência nos leva a um desfecho que não poderia ser melhor, inesperado.

Beto Guimarães, 09/10/2008
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Adorei. Interessante e assustador.

Stephani, 07/10/2008
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Ficou legal!! Até mais.

Adriano, 25/09/2008
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Lendas Urbanas.

Ingrid Gomes , 05/09/2008
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Conto muito bem escrito, daria um ótimo livro, a autora conseguiu passar a dor em detalhes, de forma perfeita. Uma riqueza admirável de palavras, podia ter mais. Amei.

Maria Vitória, 30/08/2008
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Muito legal esse conto, show de bola.

Sabrina, 27/08/2008
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Eu vou até usar pro meu trabalho de escola, realmente, ficou ótimo.

Gabriela, 25/08/2008
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Parabéns autora ^^ Escreves muito bem =) continue assim. Quero ler mais e mais.

Sophie Abdah, 23/08/2008
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Intrigante, muito bem escrito. Certos detalhes me fazem pensar no que há entre ela e a morte do marido, me parece que ao final a idéia da morte não apenas aplaca a dor, mas alivia algo em sua consciência.

Eleonora, 15/08/2008
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Estou esperando o próximo!!!Cadê, cadê????

Vanessa, 15/07/2008
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Estou realmente envaidecida (próximo, muito próximo do pecado do orgulho!!!). Grata a todos os que manifestaram opiniões aqui.

Denise Ravizzoni, 19/06/2008
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Gostei muito dessa história.

Letícya Peterson, 17/06/2008
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Um conto bem escrito, com emoções e descrições impactantes, mas dosadas com uma habilidade evidente. A autora concentra a ação da narrativa ao longo de um dia, mas o leitor é levado a penetrar nos meandros da mente da personagem e, assim, compartilhar da ação em um tempo que é, na verdade, muito mais psicológico do que puramente temporal. Grande texto, que vem abrilhantar, com sua técnica perfeita, os escuros cantos do nosso Beco.Estou realmente envaidecida (próximo, muito próximo do pecado do orgulho!!!). Grata a todos os que manifestaram opiniões aqui.

Alexandre Gazineo, 17/06/2008
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Depois de um bom tempo sem deixar oportunos comentários, aqui estou para dar as boas-vindas a mais nova parceira do Beco. Denise, teu texto apesar de curto, é bastante conciso nas ações e descrições das situações abrangidas. Meus parabéns! Mais um ótimo texto postado nesse site.

Cláudio Quirino, 07/06/2008
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O sono, muito sono...
Bommm!!!
Uma moça na praia? Pode ser!
Gostei do espaço literário...

Vanessa, 06/06/2008
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Excelente.

Josué de Oliveira, 06/06/2008
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A modesta autora que vos fala muito agradece.

Denise, 03/06/2008
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Está bom.
Tem frases impactantes.

Raoni, 03/06/2008
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"É preciso levantar, é preciso ir em frente. Longo dia, muitas coisas, nenhuma vontade. Padeço do mal moderno de ter muitas atividades para preencher o tempo por puro medo de não ter nada para fazer".

Por acaso, lembrou-me Albert Camus. Simultaneamente, ferino, suave e "inabitado". Muito bom. Preciso das "outras páginas" desse diário.

Tales Pinheiro, 03/06/2008
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Inteligente, bem escrito, cheio de sutilezas e num estilo misturando o realismo e o onírico, que faz lembrar Allan Poe, Lovecraft, Blackwood e os grandes mestres do terror. Parabéns á autora.

Carlos Patrício, 03/06/2008
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"Tiro o meu melhor personagem de dentro de mim mesma e visto como se fosse uma luva de borracha"...
Como sempre, inesquecível. Parabéns...

Roberto, 02/06/2008
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Hoje, tive tempo de entrar no Beco, e deparei com um novo conto na página: "Querido diário". Li-o de pronto. Espetacular! O estilo da autora é ímpar: ela joga a história aos poucos, e guarda o grande momento para a última linha! É como uma moça na praia, que enche a mão de areia e começa a soltar devagarinho. Depois de alguns instantes, abre a mão de repente, e toda a areia é jogada ao vento, que a espalha...

Valdeci Garcia, 31/05/2008
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