Tão frio e cortante quanto uma lâmina bem afiada, ele urrou:
- Cala sua boca! Eu mandei você calar a merda da sua boca!
O condenado, já num nível de medo acima do simples suor, esbugalhou seus olhos, mas não conseguiu encarar seu interlocutor, ou melhor, seu carrasco.
- Me diz o que você quer. Pode ser qualquer coisa, é só falar. Você sabe que dinheiro não é problema, é a solução...
Nesse momento, o assassino mais irritado ainda e antes parecendo um cão raivoso, bradou:
- Você está querendo me irritar, não é? Dinheiro não é problema, é a solução o cão. Mas eu gosto dessa brincadeira. Você me irrita, e eu te machuco. Adoro brincar disso.
E mantinha o olhar vazio, como se estivesse longe dali, ou tramando algo.
- Mas que pena, o jogo só irá começar às 22:30 hoje...
Então, ele mirou um olhar profundo na vítima.
- Mas não se preocupe, nós não o perderemos...
Depois, deu as costas ao pobre homem e, caminhando lentamente, forçou um sorriso tão intimidante quanto sarcástico e disse:
- Pena que você só vai se divertir de verdade com este jogo à noite. E à noite, ainda, você também terá muito tempo pra descansar!
Nisso, ele deu uma gargalhada psicodélica que arrepiou ao outro, pegou uma peixeira numa espécie de mesa de ferramentas, e começou a fazer com que a réstia que entrava pela pequena janela da cabana, quase uma portinhola, refletisse, por meio da lâmina, na cara de sua vítima, a qual estava sentada e muito bem amarrada. Quando serviu à Marinha Israfel aprendera a fazer praticamente toda espécie de nó rapidamente e com extrema habilidade.
- Não, não, não! Por favor, não!
“Tenho que terminar com ele ainda hoje, mas ainda há tempo pra me divertir mais um pouco...”
Naquele instante, como se fosse uma cena do filme O albergue, mas numa de versão do diretor, aquele personagem assustador deu mais um passo em direção da vítima e puxou com força um de seus braços, o direito, que como o esquerdo lhe estava amarrado fortemente ao tronco. Então, grudou a mão do velho senhor ao chão, tombando-o junto com ela, e pisou com toda a força sobre seus dedos, mantendo-os imóveis, mesmo sob os murmúrios lastimosos do outro.
- Lembra-se do tempo em que você me pedia uma mãozinha nisso, outra naquilo, e eu sempre lhe atendia, solícito? Pois é, você nunca deu valor para aquilo e ainda falava que eu era incompetente... Mas agora tenho outro trabalho. E nesse, ao invés de dar uma mãozinha, eu devo tirá-la, sabia?
- Você sabe que não vai fazer isso. Pelo amor de Deus, não!
Então, o homem desfechou um golpe rápido e seco, digno de açougueiro, quando este está separando a parte da carne que vai pro balcão da qual fica no lixo... A vítima deu um grito tão forte e ensurdecedor, que a fez ficar pelo menos um minuto sem sequer lembrar-se de respirar novamente. Houve três fortes jorradas de sangue, então o resto do fluxo se estabilizou, mas ainda assim escorria intensamente.
O velho teve um curto desmaio. Logo que acordou e apercebeu-se da situação na qual se encontrava, desesperado o pobre homem cuspiu:
- Você vai pagar por isso seu desgraçado. Não ficará impune jamais!
Muito tranquilamente, Israfel disse-lhe:
- Você prefere dinheiro ou pode ser no cartão de crédito? - e deu outra gargalhada assustadora. – Essa era a frase que eu estava cansado de repetir naquela merda. Você bem lembra. Mas tenha certeza de que vou te fazer esquecer tudo isso daqui a pouco, pois já está quase escurecendo... Porém, como eu conseguiria esquecer tudo o que passei lá? Pra isso não tem solução. E por isso é você quem vai pagar, não eu!
O assassino, pela primeira vez, ficou então rubro de cólera. Depois, delicadamente e com esmero, começou a amarrar um pano velho pra estancar o sangue que não parava de sair daquele braço.
- Você não vai embora ainda. É muito cedo – disse-lhe, tranquilamente.
Então, lançou-lhe um olhar inexpressível, que parecia atravessar o velho, como se este nunca tivesse existido, e apanhou a mão inerte, no chão.
- Vem meu anjo, que está quase na hora do jantar...
Deu três passos em direção à porta, e já viu seu mascote felino, preto, vindo a rápidas passadas em sua direção. Jogou-lhe a o pedaço humano, que rapidamente foi puxado para um canto, num gesto que mostra o incontrolável instinto selvagem do animal. Logo depois, fechou a vítima na cabana e foi até casa que havia na chácara, fazer o jantar.
O local fora emprestado por um amigo, para que ele passasse ali suas férias. Oportunamente, ele vinha fazendo bom proveito do lugar.
Israfel era daquele tipo de gente que diz já ter feito um pouco de tudo na vida. É certo que não teve uma vida ortodoxa, mas o que de pior fazia geralmente só ele sabia. Já trabalhara em muitos lugares, porém, em nenhum emprego durara muito tempo. Permanecia em torno de seis meses a dois anos em cada um, não mais que isso. Não suportava mais que isso a pressão de seus patrões ou mesmo colegas de trabalho, os quais frequentemente o faziam lembrar-se de seu pai, que era do tipo curto e grosso. Como a maioria das pessoas, acreditava na sorte e tinha sonhos (o maior deles também era ganhar na loteria...), mas ainda assim seus pesadelos eram muitos e maiores.
Terminada a janta, voltou satisfeito para seu playground. Espiou pela janela. Galvão – esse era o nome do prisioneiro – dormia. Estava ali amarrado desde a noite passada. Havia ido até sua fazenda, não muito longe dali, verificar como iam as coisas. Na volta, num longo trecho de estrada de chão, Israfel o interceptara. Há dias já vinha seguindo seus passos.
Entrou na cabana.
- Vem querido, que já estou ficando impaciente...
Galvão, de súbito, acordou assustado. Israfel percebeu que ele estava alterado, que havia sucumbido ao medo, pois suas mãos tremiam copiosamente.
- E eu já estou perdendo toda minha concentração... Vou terminar isso daqui a pouco!
A vítima, então, começou a rezar como comumente acontece nessas horas, quando nada mais serve de apelo ao assassino, e tudo fica negro aos olhos do desgraçado. Mas logo principiou a falar palavras desconexas, frases sem sentido, que não tinham nada de reza. Parecia talvez algum ritual pagão. A loucura acontece quando a gente não consegue ver mais os pontos com que costuraram o mundo. E Galvão já os perdera de vista há algumas horas...
- Calma, não precisa desesperar. Cada coisa a seu tempo. Vamos por partes. Qual delas você quer que eu arranque primeiro?
O resto do que aconteceu mancharia estas folhas com demasiado sangue, e pouco conteúdo. No entanto, existem alguns fatos relevantes da vida de Israfel que devem ser explanados para que se possa entender um pouco melhor o enredo desta estória. Além disso, e como nos filmes, essa é uma boa hora para escapar em direção a outra imagem.
Como fora dito anteriormente, Israfel não parava em lugar algum. E assim, ele começou a trilhar o caminho que é como uma bola de neve em casos como o dele: o crime.
Como sempre, houve o primeiro, que é inesquecível como tantas outras primeiras coisas. E para ele, somente esse foi. Os outros foram consequência do número um, fato comum nesse tipo de gente. Acontecia o que já se deve ter desconfiado, senão percebido por você. Ele saía de cada emprego, geralmente por causa de “não suportar a pressão” dos outros. Não sabia viver em sociedade. Isso era parte da verdade. No fundo, Israfel ainda era uma criança perdida no meio dos adultos, ocupados com seus hobbies e trabalhos idiotas e incoerentes, como ele os chamava.
Mas houve algo que o tornou homem. E mesmo que não tenha gostado da experiência na primeira vez, digo-lhe que do gosto do sangue jamais se esquece. Ele sentiu este sabor muito cedo, mas só após os vinte começou a praticar com afinco, diga-se de passagem, assustador. Para ele, matar pessoas transformou-se numa brincadeira de menino que o tornava homem, ao menos naqueles momentos.
Então ocorreu que o gosto dele ficou mais refinado: elegia suas próximas vítimas criteriosamente. Quando o paladar das pessoas torna-se mais requintado, deve-se também aprender a preparar as refeições com mais requinte. E foi isso que aconteceu com ele. Como que naturalmente, Israfel aprendeu logo a dominar a sua arte. Conhecia tão bem o lado dele quanto o da lei, a qual jamais o apanhou.
Há um ditado que diz que quem gosta do que faz, o faz bem. Psicopatas gostam do que fazem. Fazem por prazer, e dificilmente são apanhados. Por isso Israfel nunca foi pego. Essa era a verdadeira e única profissão dele. E ele sempre tinha um segundo plano...
E essa profissão exigia dele que houvesse vingança. Nisso, aplacou vários de seus ex-patrões e colegas de trabalho. Matara somente um deles enquanto ainda trabalhava ao seu lado. Geralmente fazia o serviço algum tempo depois de largar o emprego, para não levantar suspeitas. Também por causa disso sempre era ele quem pedia a demissão, alegando que encontrara algo melhor, o que nem sempre era verdade.
Galvão era o último da lista. E ele ainda não morreu. Voltemos lá.
A cabana encontrava-se muito suja de sangue. Pedaços do velho senhor estavam espalhados pelo recinto. O velho já não estava consciente para se horrorizar do último ato. Enquanto a parte final (e vital) de Galvão era sutilmente cortada, Israfel cantarolava baixinho o que parecia ser um hino, daqueles de igreja. Em meio a toda aquela atrocidade, a voz do assassino soava límpida e sedutora, como num pesadelo macabro regado a música angelical, lírica.
Em seguida, começou a recolher lentamente os membros pelo chão, e a depositá-los num saco plástico. A cada membro que juntava, cantando, ele tinha a visão de uma lembrança.
Quando pegou o braço esquerdo, recordou dos domingos em que ia à missa, com sua jovem mãe, onde cantava no coral da igreja hinos como esse que agora entoava. Ao apanhar a perna direita, lembrou das bebedeiras do pai, quando este chegava embriagado, raivoso, e quase sempre batia em sua mulher. Na hora em que Israfel depositava o braço direito no saco, viu claramente o momento em que, numa dessas brigas, ele pegou a arma que seu pai guardava numa gaveta e apertou três vezes o gatilho...
Não, ele não matou sua mãe com os tiros. Somente o pai. Mas foi como matasse a jovem senhora também...
- Amor, venha aqui agora!
Após os disparos o garoto abraçou sua mãe que, chorando, disse-lhe para não se preocupar com nada, pois tudo iria ficar bem.
Mais tarde, quando a polícia chegou, o menino fez - a contragosto - o que sua mãe lhe recomendou: não falou que foi ele quem havia atirado. Sua mãe foi presa. Um tipo de morte que lhe encerra até o presente momento da narrativa.
Israfel canta calmamente mais um trecho do hino, apanha então os membros restantes - a perna esquerda, a cabeça e o que sobrou do jantar de seu gato -, joga-os no saco plástico e termina, enfim, a sua canção.
٭٭٭
Ótimo. Acabou a adrenalina. Chega de sangue por hoje. Já passou da conta mesmo. Jamais imaginei que esse seria tão sanguinário... Hoje liquidei (e com gosto) um antigo patrão meu... Vamos ver quem será o felizardo amanhã. Ainda quero viver tempo o bastante pra matar a todos eles... Sabe, gostei dessa frase. Até vou anotar.
Estava com muitas idéias boas e diferentes fluindo em minha mente, porém essa merda do meu notebook velho levou mais de meia hora só pra ligar, e perdi muita coisa. Porcaria. Podia até ter usado o desktop no quarto do meu filho, mas além do Júnior não sair de lá eu acho que na verdade eu nunca escreveria naquele como escrevo no velho aqui. Todo escritor tem uma caneta especial, ou um caderninho que não troca, ou mesmo uma borracha que parece lhe trazer inspiração... No meu caso é esse velho amigo quem faz isso. Se bem que na verdade ainda não sou propriamente um escritor. Mas pelo menos já possuo algumas das manias estranhas deles.
Sabe que acho que o texto ficou bonzinho... Amanhã cedo darei outra revisada e tentarei enviar para aquele site, O Beco. Sempre que envio algo pra lá, a adrenalina se expande: será que vão gostar?
- Filho! Júnior vem cá!
- Que foi pai?
- Já fez sua lição de casa?
- Fiz sim quer ver?
- Não precisa não. Que horas você havia falado que começará o jogo hoje?
- Já falei que é 22:30 pai... Vai demorar um pouco por causa da propaganda eleitoral “atrasatória”.
- Já disse pra você falar direito Júnior... Bem, já que você fez a lição, haverá tempo para jogar videogame por uns quarenta minutos, antes do jogo de futebol. Mas não aquele jogo violento. Sabe que é só pra maiores... Vai e não se atrase, não podemos perder esse jogão de hoje.
-Você é o maior pai!
Tava quase me esquecendo. Tenho a porcaria daquele resumo pra entregar amanhã no jornal! Mas não posso reclamar, pois já me diverti bastante por hoje... Termino o trabalho logo depois do jogo de futebol. É uma pena a literatura ainda estar em segundo plano na minha vida profissional... Eu queria poder me dedicar bem mais à arte, mas, como dizia o velho Hemingway, a velha questão da sobrevivência é um sério problema...
- Querido, pelo amor de Deus, venha jantar! Já é a quarta vez que venho aqui pra chamar você...
- Já terminei querida, agora estou indo. Desculpe-me se fui rude com você agora pouco, mas você sabe que odeio que entrem na minha sala quando estou trabalhando.
- Não tem problema não, eu entendo. Mas agora vem.
O telefone toca.
- Alô? Sim. Sim. Mas como? Tudo bem. Ok. Eu posso, posso sim. Vou mandar um técnico amanhã, logo de manhã... Abraço.
- Quem era querido?
- Nosso inquilino do litoral. Disse que vai me processar porque que a piscina, o aquecedor e todo o resto simplesmente não prestam naquela maldita casa. Disse que não vale o aluguel que pagam... Pode?
- Não esquenta a cabeça amor, vem comer... Amanhã você dá um jeito nisso.
- Pode deixar. Eu já sei muito bem o que vou fazer com aquele canalha. Ah se sei...