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"Esse cara ainda vai te arrebentar". Invejosa. Seis em ponto. Não lembrava de outra tarde tão irritante e lenta. Ajeitou o cabelo, desligou o computador e entregou o relatório, sem esperar os comentários gosmentos que conhecia de cor. O Dr. Sérgio e suas tentativas ridículas de parecer irônico. Ou inteligente, onde se saía pior ainda. Soprou beijos apressados, socou papéis em desalinho na pasta e recusou o chopinho em Ipanema da Odete, convite feito em cima da hora propositalmente. Ignorou o cinismo clássico por cima dos óculos azuis, nem pensar, tinha compromisso. Coisa de vida ou morte, brincou, forçando em vão uma simpatia para disfarçar o ódio. No estacionamento, custou a encontrar o ticket e as chaves. Esqueceu de colocar o cinto, cantou pneu na saída da garagem e fez a curva sobre o cordão da calçada. Deixou o carro apagar na primeira esquina e acenou desculpas constrangidas, porém irritadas, para o guarda de trânsito. Gostaria é de saber que tipo de cretino planejava muito mais tempo para o vermelho em todos os semáforos. Ligou o rádio e deixou numa canção antiga de Caetano, ao vivo. Eu quero que você venha comigo, todo dia, todo dia. Queria mesmo. Queria muito. Passou no supermercado, comprou uma garrafa de cabernet sauvignon. Imaginou uma janta romântica, porém prática. Lasanha pré-pronta, brócolis e um pote de sorvete de baunilha. Calda de chocolate tinha no apartamento. Calda de chocolate e a sua língua seca de fome e saudade do corpo dele. Perfeito. Aquela noite daria inveja a Mickey Rourke e Jaqueline Bisset. Sentia falta dele. O Bruno, nas quartas-feiras. Fazia tempo. Mas desta ele não escaparia de jeito nenhum. Tinha uma surpresa. No caixa, esperou, impaciente. O sistema demorou a liberar conexão com a operadora do cartão de crédito, explicou a moça. Todo dia é assim, naquele horário. Tem conforto que se inventa para gerar mais desconforto, não acha? Não queria papo. Queria era chegar em casa de uma vez. Cancelou o cartão, pagaria em dinheiro. Outra espera, agora para anular a operação, teve vontade de sair correndo com as sacolas e mandar todo mundo longe. O Bruno, às oito. Driblou os congestionamentos como pôde, buscou ruas secundárias, arriscou becos que costumava evitar e conseguiu entrar na garagem do prédio antes do horário. Subiu os quatro lances de escadas saltando os degraus de dois em dois, como quando era criança. Num tempo em que acreditava que poderia ser feliz, e foi, sim, até o pai lhe correr de casa após abrir a porta do quarto. Quis morrer, estava na cama com um primo, sem roupas. Suma dessa casa, criatura imoral!, ele gritou, a mãe assistindo sem dizer nada. O primo ficou. Bobagem, lembrar disso agora. Queria pensar no Bruno. E só. Novamente se atrapalhou com as chaves e deixou cair uma das sacolas. Menos mal que não foi a com o vinho. Largou as compras no sofá, abriu as janelas, ligou o som e foi tomar uma ducha. Estava bem, interiormente, era o que importava. Uma paz reconfortante de decisão tomada. E aceita. Dali a pouco estaria de bem com o Bruno, como antes. Como jamais poderia ter deixado de estar. Vestiu roupas leves, pôs a lasanha no forno e arrumou a mesa às pressas. Sete e meia. Limpou o jogo de cálices de cristal que nunca usava, por falta de ocasiões especiais. Presente de aniversário na festa dos trinta e cinco anos, aquela em que o Dionísio se passou na bebida e queria sexo oral no banheiro. A mulher dele ali, na sala, a uma parede de distância. A festa em que viu o Bruno pela primeira vez. Acendeu incenso e velas e programou alguns cds. Salientou outra vez a foto dele escondida na estante, retirando com o punho uma fina camada do pó que sempre entrava no apartamento, mesmo passando o dia com as janelas fechadas. Lurdes dava um jeito de colocar o porta-retratos atrás das flores. Não gostava do Bruno. Esses garotões só querem boa vida, resmungava. "Pois saiba que antes de trocar o namorado, troco é de empregada", ameaçava, sabendo que mentia. Lurdes se calava. E continuava a esconder as fotos dele. Era a sua vingança. "O Seu Dionísio, sim, aquilo era homem decente", resmungava a empregada. Decente uma ova, Lurdes. Casado e mentiroso, eu mereço isto? Mentiroso é esse daí, teimava a outra, mostrando a fotografia com o queixo numa careta. Ligou a televisão e ficou percorrendo canais, catando passatempos. Quinze para as oito. Do sofá, não conseguia tirar os olhos do relógio. Definitivamente, o tempo estava devagar. Oito, enfim. Quando a gente quer demais, aí é que demora a acontecer, dizia Lurdes. Oito e cinco, oito e dez, oito e vinte, oito e meia. Nada do Bruno. Começou a se preocupar. Perdeu o ônibus, talvez. Ou tinha aluno novo na academia. Nove horas. Decidiu ligar. Digitou com agilidade um dos raros números que sabia de cor. A gravação anunciou o celular fora da área de cobertura ou desligado. Tentou outra vez e mais outra, sempre o maldito recado da operadora. Nove e cinco, seis, onze, doze. A lasanha aguardando. Nem no forno conseguiria resistir a tanta espera sem esfriar. Apanhou o controle remoto e tentou se concentrar na televisão. Não gostava da nova novela, elenco fraco, roteiro pastelão. Trocou de canal. Programa de auditório não, filme de pancadaria idem, culto religioso muito menos. Propaganda, propaganda, propaganda. Nove e dezesseis. Voltou todos os canais, deixou no noticiário. Gangues fazem mais duas vítimas em São Paulo. Não queria ver aquilo. Nove e vinte. Polícia invade favela carioca, menino de quatro anos é morto por bala perdida. Trocou de canal. Nove e vinte cinco. Deixou no programa de auditório. Precisava se provocar para esquecer o tempo. Marido troca esposa pelo primo, dizia a legenda laranja, letras garrafais. Não conteve o riso. Primo, olha só. Sentou na poltrona e, por um instante, deixou de lado o telefone e o relógio. Uma mulher chorava. Negra, magra, escabelada, vestido roto e sujo. Segundo o Clóvis, miséria e fracasso tem a ver com negros, eles são o símbolo do lixo social, a essência para as chamadas de qualquer campanha beneficente. Sem criança negra, seminua e ranhenta, não dá apelo. Escroto. Quantos anos faltavam para se aposentar, mesmo? Tentou prestar atenção no apresentador do programa, porém os olhos voltaram instintivamente ao relógio. "Disque o número que aparece no vídeo, dê a sua opinião, participe da nossa enquete". Num gesto involuntário, discou. Ocupado. Vinte para as dez. Soou um gongo e entraram no palco dois homens de mãos dadas. Um baixote magrelo, rosto marcado e cara de índio, e outro mais fofinho, que não chegava a ser alto, mostrando logo que lhe faltavam alguns dentes. Sentaram num sofá sob alguns aplausos, abafados pelas vaias do auditório. O apresentador perguntou quando começara o romance deles. Desde menino, respondeu o baixote. Close no apresentador boquiaberto. Close na mulher chorando. Close numa criança negra, seminua, ranhenta. Tentou discar outra vez para o Bruno. Na tela, a parcial da pesquisa apontava o público desaprovando o namoro dos primos, cinqüenta e seis por cento. A mulher mostrou uma ferida na perna. Close. Batuque feito pelo amante de seu marido, ela disse, não estava conseguindo mais nem criar os filhos, agora que não podia trabalhar. Filmaram a criança, outra vez, e mais duas, ainda menores, bico na boca, olhos arregalados sem saber muito bem o que estava acontecendo. Cinco para as dez. O Bruno devia ter alguma menina nova que o esperava na saída da academia. Desconfiava disso há algum tempo. Era bonito, sabia se vestir, as vadiazinhas o desejavam sem se dar ao trabalho de disfarçar. O olhar negro, profundo, o corpo delineado de professor de boxe tailandês numa academia do subúrbio, um tremendo amante. Gigolô, isso sim, retrucava Lurdes. Dez em ponto. Estou pensando em ti, diria, se estivessem juntos, apontando os dois zeros da hora exata. Você está pensando em mim também? Pois tenho uma surpresa, nunca mais estaremos distantes. Nunca mais. Ele andava zangado, sabia, mas é que não poderia vender o carro ou arranjar empréstimo assim, de repente. Não De repente deu um salto, todos os órgãos do corpo em susto. A campainha tocou. Sentiu as pernas bambas, esticou a roupa, ajeitou os cabelos, só um pouquinho!, gritou, e correu. Aguardou dois segundos e abriu a porta, sorriso pronto. Oi Bruno, demorou, disse, fazendo a voz mais macia que sabia fazer. Então viu o outro rapaz. Não chegou a perguntar quem era, veio um soco no estômago e outro na cabeça. Caiu sobre o tapete sem entender o que estava acontecendo. Fecha a porta, cara! O que é isso, amor? Amor uma ova, seu puto, vim buscar o teu cartão, cadê o teu cartão? Que cartão, Bruno? Outro soco. Veado filho-da-mãe!, gritou o namorado, sumindo na direção do quarto. O rapaz que não conhecia o levantou pelos cabelos e mostrou uma faca. Sabia que odeio bichas? Tá ligado onde é que eu vou enfiar esta lâmina? Tremeu. Do quarto vinha o barulho das portas do roupeiro batendo com violência, abajur caindo, vidro de perfume se quebrando. Aqui, achei a merda do cartão! Bruno reapareceu na sala, eufórico, agachando-se ao seu lado. Olhou dentro dos seus olhos como olharia se fosse dar um beijo, balançou o cartão do banco no ar e sorriu. Agora, eu quero a tua senha. Sentiu uma dor na boca e não conseguiu falar. Não ouviu o Bruno?, perguntou o outro, cadê a porra da senha? Fez um esforço, a língua parecia uma bola de carne esmagada, doendo entre os dentes. Levou um pontapé no rosto. Calma cara, olha o sangue aí na tua roupa, como é que a gente via sair do prédio? Fica na tua, fica na tua, a senha, veado desgraçado! Amor, calma, eu só queria te contar que está tudo resolvido, eu decidi, eu vou te dar um presente. Queria ter voz, outra vez. Peraí, me deixa mostrar pra ele que não estamos de brincadeira. O rapaz deu um golpe ligeiro com a faca, a dor veio meio segundo depois da visão da orelha caída no tapete, envolta em sangue. A mesma orelha que esperava a língua de Bruno provocando arrepios pelo seu corpo inteiro. A orelha que só queria um hálito morno falando de amor. E então, Brasil? O que você pensa sobre a união de homossexuais? O apresentador foi silábico. Eu te amo, Bruno, eu te amo! Outro pontapé. Corto a outra? Não, corta o pau! Por favor, eu dou a senha, não quero morrer, pelo amor de Deus!, grunhiu. Disse os números, sussurrados, ensangüentados, a boca doía, o corpo inteiro doía, o coração doía mais que tudo. Bruno balançou a cabeça, impaciente, e trouxe papel e caneta. Vou conferir, resmungou. Se estiver errado, eu corto isso daqui, disse o outro rapaz, bem próximo do seu rosto, acariciando-lhe o pênis sob a calça com a faca ensangüentada. Bruno tentou umas cinco vezes a ligação para o atendimento automático, merda!, esse maldito telefonezinho de puto, ele repetia. Suspirou. Sabia que o telefonista do programa não tinha chamado a polícia. Televisão não dá pra levar a sério, dizia Lurdes. E ela estava certa, sempre certa. Bruno gritou, tá na mão, é a senha mesmo e a grana está lá, vamos cair fora. “Peraí, Seu Carlos, só peço que o senhor se cuide”. Pobre Lurdes. Ter que limpar toda aquela sujeira no dia seguinte. Eu queria dizer que aquela bicha fez gato e sapato do meu marido, tirou tudo o que era meu e ainda me ameaçou de morte, fez batuque pra me deixar de cama. É mentira dela, só queremos viver a nossa vida em paz, curtir o nosso amor!, alegaram os primos. Desespero, música de suspense. Close nas crianças negras, ranhentas, seminuas. Vaias do auditório. Vira pra cá, gritou o Bruno, pegando a faca na mão do outro. As letras no vídeo eram vermelhas como sangue, difusas. A mulher sorria, as crianças também. Os primos choravam, abraçados. Aplausos. Mais uma noite divertida, despediu-se o apresentador, em close, o rosto quase colado no seu. Ou foi o Bruno? |
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Nossa mto foda seu texto. Gostei muito, parabéns vc ainda é uma das unicas pessoas que escrevem bem nesse país! rsrsrsBjãO Sara, 29/05/2009 |
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Muito Bom! Parabéns! Danieli Faria, 29/12/2008 |
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Gostei muito deste conto. Cheguei a ficar com pena do protagonista. Realmente, o estilo do autor lembra muito o do Rubem Fonseca, principalmente na forma de lançar as informações necessárias; e nos diálogos. Só não entendi o título "antropofagismo"... Só se for aplicado, aqui, no sentido de imolação do ser humano. Contudo, parabéns ao autor pelo bom conto! Valdeci Garcia, 25/11/2008 |
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Alguém aí falou em Rubem Fonseca. É isso mesmo! |
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Um conto impecável que só encontrei agora no site, mas me fez lembrar Rubem Fonseca. Direto e ágil, excelente, alto nível. |
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Tarefa impossível comentar este conto em espaço tão exíguo. Este texto de Berni é de excelência antológica. Um dos melhores contos - se não o melhor - que li nos últimos tempos. Perfieto, intenso, original, visceral. Obra de mestre! |
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Mais uma vez Oscar consegue apreender a atenção de forma única, envolvente, detalhista. Parabéns! Excelente conto! |
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Ótimo conto, gostei bastante das narrativas das cenas, ritmo veloz. Muito bom. |
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Com certeza, nota-se uma excelência na desenvoltura do texto inteiro. Trata-se de um entremeio policial muito bem caracterizado por bons diálogos e situações. Meus Parabéns, Oscar! |
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Narração em ritmo frenético, diálogos entrecortados. Aprecio tudo isso. Belo trabalho, Oscar. |
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Nossa, li mais da metade do conto achando que fosse (...) a personagem principal. Muito interessante o conto, gostei muito, só não consegui entender bem o final, mas é bom! |
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