![]() |
Gostaria de ter investigado estes crimes. |
| _______________________________ |
|
|
|
A recepção do consultório médico era aconchegante. Uma sala pequena, com móveis confortáveis e novos. Atrás de uma mesa de madeira cor de marfim, uma moça de aspecto sério digitava em um computador. Quando Gomes entrou, a moça olhou-o sem curiosidade. Um paciente a mais, deve ter pensado. Mas logo um sorriso simpático a fez rejuvenescer uns dez anos e ela perguntou como faz toda boa secretária: ‘Pois não?’ ‘Bom dia. Meu nome é Gomes. Tenho consulta com Dr. Siqueira’. A moça voltou ao computador, teclou o código que faria Gomes surgir milagrosamente em seus registros cibernéticos e confirmou: ‘Senhor Godofredo Gomes. Consulta às onze. Por favor, o senhor pode sentar? Vou avisar ao doutor que o senhor já chegou. ’. Gomes agradeceu, mas ficou em pé. Se tivesse outro paciente à espera, ele talvez sentasse. Ficou contemplando a tela do computador, onde uma cachoeira de águas cristalinas caía entre uma floresta verdejante. Bom para relaxar. O doutor Siqueira voltou à sala com a secretária. Era um homem de estatura mediana, na faixa dos quarenta anos, cabelos bem penteados e uma expressão de confiança no rosto meio angelical. Sorriu ao ver Gomes e lhe estendeu a mão: ‘Inspetor! O senhor por aqui! A que devo a honra?’. ‘Policiais também vão ao médico!’ – respondeu Gomes, desconfortável, encolhendo os ombros largos. ‘E com mais razão a um oftalmologista. ’ – acedeu o médico – ‘Afinal, se existe alguém que deve ter boa visão, esse alguém é um policial! – abriu a porta, às suas costas, convidando – ‘Por favor, entre’. O consultório não era diferente de outros do mesmo tipo. Uma cadeira para o paciente ser examinado e aquele monte de geringonças que servem para espiar os olhos das pessoas e descobrir quão cegas elas são. Gomes sentou em uma cadeira na frente da larga mesa de tampo de granito do médico. ‘Quero agradecer o empenho de vocês na investigação da morte do meu sócio, o doutor Edgar. Um horror!’ – o médico suspirou, meneando a cabeça, tristemente – ‘Ainda bem que o culpado foi preso. ’. ‘Ele está preso. Mas não foi ele quem matou seu sócio’ – informou Gomes com um meio sorriso envergonhado. O médico empalideceu. As mãos, bem cuidadas, agitaram-se levemente. Ergueu as sobrancelhas em uma pergunta muda, mas, vendo que Gomes não se dispunha a continuar, perguntou, não sem irritação na voz: ‘Como assim? O homem assaltou e matou Edgar! Vocês o prenderam!’. ‘Ele realmente tentou assaltá-lo’ – Gomes moveu-se ligeiramente para frente – ‘Mas não o matou. ’ ‘Vocês vão deixar esse bandido se safar? Sair solto por aí?’ – e na testa do doutor Siqueira despontaram gotas de suor. ‘Não. Ele tem uma ficha longa. Vai ficar um bom tempo preso. Mas não por homicídio. ’ – Gomes sorriu – ‘Seria um erro. E como o senhor disse, nós, policiais, temos que ter uma boa visão das coisas. ’. ‘Mas então... ’ – o médico abriu os braços, desconcertado. ‘Uma investigação é como um diagnóstico médico. Às vezes se acerta, às vezes não. Por isso vim até aqui. Para explicar alguns pontos’. ‘A mim? Mas eu não entendo nada de investigações!’. ‘O senhor era amigo da vítima. Achei que gostaria de saber o resultado. ’ – sugeriu Gomes, persuasivo. O médico assentiu com a cabeça e encostou-se no espaldar da cadeira. Gomes continuou – ‘O assaltante confessou que abordou doutor Edgar na noite do crime. Queria o carro e dinheiro. Um bonito BMW. ’ – Gomes meneou a cabeça – ‘Perigoso andar com um carro assim!’. O médico concordou. Os traços do seu rosto revelavam dúvida, uma pergunta que reclamava ser perguntada, mas que se mantinha presa em um silêncio tenso. ‘O assaltante disse que abordou doutor Edgar por volta das onze da noite. Ficou surpreso em ver um BMW àquela hora em uma zona tão barra pesada’– voltou a encolher os ombros, concordando com o assaltante – ‘Ele não ia desperdiçar a chance. Viu que o motorista estava só e decidiu agir. Mas tinha um detalhe... ’. ‘Qual?’ – o médico inclinou-se para frente, curioso. ‘O assaltante estava desarmado. Mas ele tem imaginação... ’ – Gomes pôs um dedo na testa, sinal de elogio à inteligência do marginal – ‘Fez de conta que tinha uma arma sob a camisa e obrigou seu sócio a descer do carro. Mandou-o abrir a mala e então conseguiu a arma que precisava. Uma chave de roda!’. ‘A chave de roda com a qual ele o matou. A mesma chave de roda que vocês encontraram na mão dele!’ – o médico suspirou, irritado – ‘Como então não foi ele o assassino?’. ‘No mundo do crime existe todo tipo de criminosos. Existem os que têm uma boa visão de conjunto e os que não enxergam muito bem. Como seus pacientes, eu suponho ’ – Gomes sorriu – ‘Nosso suspeito, infelizmente, pertence ao último grupo. De posse da chave de roda, exigiu as chaves do carro e o dinheiro. Doutor Edgar ficou nervoso e teria dito algo estranho: ainda não tenho o dinheiro. ‘Ele pode estar inventando. O senhor mesmo disse que ele tem imaginação... ’ – e repetiu o gesto do dedo na testa. ‘Nem tanto. Mas o que significaria a frase? Uma resposta fazia sentido: seu sócio estava contando em receber algum dinheiro. Mas de quem? E quando? A primeira resposta não apareceu logo, mas a segunda... ’ – Gomes meneou a cabeça, seguro das conclusões – ‘O dinheiro iria ser entregue naquela noite e naquele lugar. Por isto, um BMW em um lugar como aquele. ’ – Gomes olhou para o médico, o olhar fixo – ‘E devia ser um bom dinheiro! Algo que valesse o risco!’. ‘Seja como for, inspetor, o fato é que esse miserável perdeu a cabeça e matou Edgar. Meu Deus! Isso acontece todo dia aqui em São Paulo!’. O médico estava revoltado com a insegurança na cidade. Não se sentia mais surpreso com essas críticas. Ossos do ofício. ‘O senhor tem razão. Mas às vezes as coisas fogem do padrão. Como neste caso. Seu sócio era um homem alto e forte. Um esportista. Faixa preta de judô. O senhor conhece o suspeito?’ – o médico negou com a cabeça – ‘Tem dezoito anos, talvez um metro e setenta e é magro como um palito. Não é difícil supor que o doutor Edgar, caso tivesse resistido ao assalto, o venceria. No mínimo, restariam traços de luta no corpo de um e de outro. O senhor não concorda?’ – o médico assentiu com a cabeça, suspirando – ‘Mas não existe, doutor. Nem um traço!’. ‘Mas a arma, inspetor... não foi achada com ele?’ – insistiu o médico. ‘Sim. E com manchas de sangue. E o sangue era do doutor Edgar. ’. O médico abriu novamente as mãos, como se o caso estivesse explicado. Gomes continuou: ‘Encontramos no porta-luvas do carro um cartão de uma borracharia aqui perto. Na manhã do dia do crime, o pneu de seu sócio furou. Ele foi obrigado a trocá-lo em plena rua. Na hora do rush. Ficou nervoso. A chave de roda feriu-lhe a mão; alguns cortes nos dedos da mão direita. A autópsia identificou as lesões. E o depoimento do borracheiro confirmou. Ele disse que ao chegar à borracharia Doutor Edgar tinha sangue nas mãos e pediu para usar o banheiro. ’. ‘Ora, inspetor, simples cortes nos dedos não causam tanto sangramento quanto um golpe na cabeça!’ – o ‘De modo algum!’ – Gomes se desculpou, erguendo as duas mãos, em um gesto conciliador. Sorriu e entrecerrou as pálpebras, antes de perguntar – ‘Mas como o senhor sabe se na arma do crime havia ou não muito sangue?’. ‘Simples. Edgar morreu com o crânio quebrado. Evidente que houve muita perda de sangue. ’ – respondeu tranqüilo o médico. ‘Verdade! Por isto mesmo é que a chave de roda do BMW, encontrada com o assaltante, não podia ser a arma do crime. Devia haver muito mais sangue nela! O senhor está certo!’ – Gomes adotou uma expressão atordoada – ‘Segundo a perícia, a arma, possivelmente, tinha sido um instrumento contundente, como uma chave de roda. Então onde estaria a arma do crime? – Gomes deslizou a ponta dos dedos na quina da mesa, o olhar concentrado – ‘A única resposta possível era: com o verdadeiro assassino!’. ‘E quem seria esse assassino? Ao menos isto vocês sabem?’. ‘Isto é tudo em uma investigação! Como quando o senhor descobre qual o problema do seu paciente. Mas assim como acontece com os médicos, nós, policiais, temos que examinar um ou outro detalhe até chegar a uma conclusão. O primeiro detalhe é que o assassino usou a mesma arma que o suspeito carregou. Logo, esta coincidência – rara de acontecer – só pode ter uma explicação: o assassino queria nos confundir. Porque sabia que a chave de roda estaria nas mãos do assaltante! Mas como ele poderia saber? Simples! Porque o assassino viu o assalto acontecer! ‘Receio não estar entendendo muito bem... ’ – disse o médico, tirando os óculos e colocando-os sobre a mesa. ‘O assassino viu o assalto, viu o suspeito com a chave de roda nas mãos, viu, também, ele fugir com a arma. Ou melhor, a provável arma’ – emendou Gomes – ‘Então, o assassino aproximou-se do doutor Edgar e o matou. E, lógico, teve o cuidado de usar uma chave de roda!’. ‘Outro assalto, então?’. ‘Não. São Paulo é uma cidade violenta, mas não tanto’ – Gomes fez uma pausa, os olhos baixos – ‘A dúvida era porque, depois da fuga do assaltante, seu sócio não entrou no carro e foi embora? Porque ficou em lugar tão perigoso?’ – levantou os olhos, animado – ‘O assassino não era um desconhecido. Era alguém que ele conhecia. Quem sabe a pessoa de quem estava esperando receber o tal dinheiro... ’. ‘Isto tudo é tão... ’ – o médico encolheu os ombros, cansado. ‘Se o senhor preferir conversamos depois... ’ – Gomes se desculpou, fazendo menção de se levantar e sair. Doutor Siqueira pediu que ele ficasse. Gomes mudou de posição na cadeira e ficou alguns instantes contemplando o quadro com letras e figuras geométricas coloridas que estava pendurado detrás da mesa do médico. Então, perguntou: ‘O senhor não é homem de muitos gastos, não é?’ ‘Não. Vivo uma vida simples. Sou diferente de Edgar. Não tenho e nem nunca tive um BMW. ’. ‘Mas então por que no dia anterior ao crime o senhor sacou trezentos mil reais de uma aplicação?’ O médico se remexeu inquieto na cadeira. Suas sobrancelhas se moveram, desordenadamente, dando ao seu rosto redondo um ar contorcido. Perguntou, irritado: ‘Isto é violação de sigilo bancário. Os senhores não podiam... ’. – estendeu o dedo para Gomes, querendo furá-lo, como se ele fosse um bolo saído do forno. ‘Autorizado pela Justiça, doutor. O senhor não me respondeu... ’. ‘Pensei em comprar uma casa de praia. Um lugar para ir aos finais de semana!’. ‘Minha esposa gosta de praia. Eu, nem tanto. Também não teria dinheiro para comprar uma casa de praia. O senhor fechou o negócio? ‘Não. Mudei de idéia. ’ – sorriu, sem graça – ‘Acho que, no fundo, sou mesmo um pão-duro!’. ‘Foi por isto que o senhor reaplicou o dinheiro no dia seguinte ao crime?’ O médico encarou Gomes, com um olhar firme e altivo. Disparou: ‘O senhor está me interrogando, por acaso? Porque se for isto, quero a presença de um advogado. ’. ‘Onde o senhor estava na hora do crime?’ O médico sorriu, satisfeito com a pergunta. Respondeu sem vacilar: ‘Já disse em meu depoimento. Mas vou repetir. Estava assistindo a uma ópera no Teatro Municipal. A apresentação começou às nove e meia da noite e terminou as onze e quarenta e cinco. ’ ‘O senhor foi sozinho?’ ‘Sim. Sou divorciado e não tenho, no momento, uma namorada. Mas alguns amigos me viram por lá, se este é o problema. Aliás, já informei o nome destas pessoas!’ – o médico se levantou francamente decidido a pôr um ponto final na conversa – ‘Desculpe, inspetor, mas pelo visto o senhor não veio se consultar. Veio tentar me acusar... ’. ‘Não, de modo algum. Estou só trocando idéias. ’ – Gomes permaneceu sentado – ‘De fato, ouvimos as pessoas que o senhor indicou e elas confirmaram tê-lo visto no teatro. ’ – Gomes inclinou-se para frente – ‘Todos disseram que o viram quando da chegada e na saída. Não sei se o senhor sabe, mas houve um intervalo de quinze minutos... ’. ‘Comum em espetáculos deste gênero, caso o senhor não saiba. E daí?’ ‘Por favor, não se aborreça. Mas é que aos poucos, notei pontos que me inquietaram. O senhor adquiriu seu ingresso pela Internet?’. ‘Nada mais comum. ’ – o médico riu – ‘Não me diga que o senhor gosta de longas filas?’. ‘O senhor comprou o ingresso três dias antes do espetáculo. Neste dia, existiam vários lugares disponíveis nas fileiras da frente, segundo informação do teatro. Por que, então, o senhor escolheu um lugar na última fila?’. ‘Não gosto de me sentar à frente!’ – o médico respondeu secamente. ‘Preferência estranha. Segundo seus registros junto ao departamento de trânsito, o senhor tem seis graus de miopia em um olho, sete e meio em outro, além de astigmatismo, de três graus, nos dois olhos. ’ – Gomes sorriu, acanhado – ‘O senhor não enxerga muito bem. E segundo depoimentos unânimes das pessoas que o viram no teatro naquela noite, o senhor não usava óculos. Como não usa agora. ’. O médico sentou novamente. Gomes continuou: ‘Nunca fui a uma ópera. Mas suponho que deva ser entediante’ – o médico ia dizer algo, mas Gomes o cortou – ‘Digo isto porque, às dez horas e dez minutos daquela noite, uma câmara de segurança da estação do metrô Anhangabaú, que fica a uns dez metros, se muito, do Teatro Municipal, filmou o senhor embarcando em um trem no sentido Corinthians/Itaquera. E às dez horas e vinte e quatro minutos, outra câmara o filmou desembarcando na estação Guilhermina. ’ – Gomes encolheu os ombros, parecendo cansado – ‘O crime aconteceu a uns quinhentos metros desta estação!’. “Acho melhor... ‘ – o médico fez menção de erguer o telefone sobre a sua mesa, mas Gomes fez um gesto com a mão, pedindo que ele esperasse. Relutante, ele devolveu o aparelho à posição original. ‘Melhor que o senhor me deixe concluir. ’ – Gomes retirou uma caderneta do bolso da jaqueta, folheou algumas páginas, até se deter em uma – ‘Segundo perícia que sugeri no computador pessoal do seu sócio, foi encontrada uma mensagem de e-mail para a doutora Silvia Mazzo... ’. ‘Ela era amante de Edgar. Uma médica incompetente!’ – rosnou doutor Siqueira, a face afogueada. ‘Na mensagem ele escreveu: tudo resolvido. Ele concordou. Recebo o dinheiro ainda hoje. Na próxima semana, Europa!’ – Gomes ergueu os olhos, fechando a caderneta – ‘A mensagem foi enviada no dia do crime, às sete da manhã. A doutora Silvia estava em um congresso em Buenos Aires. O mesmo congresso onde o senhor iria defender uma tese, mas que, no último momento, desistiu. Por que, doutor?’. ‘Porque não estava me sentindo bem... além do mais...’ – o homem agora se agitava como um fantoche quebrado. ‘A doutora Silvia não é apenas a amante da vítima. Ela foi sua aluna na Universidade. Sua orientanda. As informações sobre ela, enquanto profissional, são muito boas. Tão boas que, ao que parece, o senhor aproveitou-se de alguns trabalhos e pesquisas feitos por ela, mas não registrados, e os apresentou como seus em um congresso na França, há quatro meses. ’. ‘Isto é um absurdo... eu nunca...’ ‘O senhor é um médico respeitado. Imagine a repercussão de uma denúncia como esta. Durante quatro meses, o senhor, o doutor Edgar e a doutora Silvia discutiram a questão. Mas seu sócio era um homem decidido e violento. Viu uma boa oportunidade de ganhar dinheiro. E não se fez de rogado. ’. Gomes se levantou as mãos apoiadas no tampo de granito da mesa. Olhou por instantes para o doutor Siqueira – e em seu olhar o médico sentiu um distante lampejo de pena – antes de prosseguir: ‘O senhor se viu acuado. Todo o trabalho de uma vida desperdiçado por bobagem. Melhor ceder à chantagem. Afinal, dinheiro vai, dinheiro vem. Mas na última hora mudou de idéia. Comprou seu ingresso, marcou o encontro em um lugar em que poderia usar o sistema de metrô como um disfarce e foi ao encontro do seu sócio, não para entregar-lhe o dinheiro, mas para matá-lo. Ao se aproximar do local, a sorte lhe sorriu. Viu o assaltante ameaçando doutor Edgar e então disparou um tiro para o alto, fazendo-o fugir com arma e tudo. ’ – Gomes balançou a cabeça – ‘Acho que me atrapalhei. Não tinha ainda falado sobre o tiro. ’. O médico estava agora imóvel. Pálido, fisionomia cerrada. Gomes esclareceu: ‘O assaltante disse ter fugido porque ouviu um tiro. Pensou que fosse a polícia. Mas não era a polícia. ’. ‘Tudo isto é tolice. E vou provar. Se eu estava com um revólver porque não o usei? E também se o assassino fugiu com a chave de roda, como eu, que estaria sem carro, mataria Edgar com uma chave de roda?’. ‘Azar. O senhor teve muito azar. Se o senhor tivesse matado seu sócio com um tiro, talvez eu não estivesse aqui. Mas o senhor quis se aproveitar do assalto. Pensou que aquele infeliz logo seria pego e com a arma do crime. E se achou o homem mais sortudo do mundo ao encontrar, na mala do carro de seu sócio, outra chave de roda. Coisa difícil de acontecer! Mas o senhor não hesitou. Usou-a e matou seu sócio. Depois, deu fim na arma. ’ ‘Suposições idiotas!’ ‘De modo algum. Lembra-se que seu sócio foi a uma borracharia? Ele comprou uma chave de roda nova, porque a antiga, que lhe ferira os dedos, estava um tanto torta na extremidade. E foi justamente esta velha chave de roda que encontramos com o assaltante. ’ – Gomes retirou um papel dobrado do bolso da jaqueta – ‘Seu sócio era detalhista. Esta aqui é a nota de compra da nova chave de roda. Data da compra? O dia do crime. ’. ‘Não vou dizer mais nada. Quero falar com meu advogado!’. Uma batida suave na porta do consultório. Gomes abriu-a e o agente Jojoca entrou. Atrás dele, a recepcionista, de pé, a expressão aturdida, tentava estabelecer contato visual com seu patrão. ‘Cumprimos o mandato de busca. Você não vai acreditar!’ – Jojoca olhou para o médico, com ar incrédulo – ‘A arma do crime estava na mala do carro dele... ’ – apontou o médico com o olhar. O médico arriou sobre a cadeira. Gomes fez um sinal para Jojoca, que saiu da sala, fechando a porta. Um longo silêncio se seguiu. O ruído do ar condicionado soava como o vôo desordenado de uma mosca presa na sala. ‘Foi por causa da arma que o senhor saiu de casa, com seu carro, por volta da meia noite e meia? Para buscá-la?’ – Gomes o olhava sem saber o que dizer. Mas disse a única coisa que julgava razoável – ‘Por quê? ‘Já se sentiu orgulhoso de algo na vida?’ - a voz do médico era agora serena, com certo tom de superioridade. Gomes continuou imóvel, olhando-o – ‘Eu me senti orgulhoso de acabar com a vida daquele pulha! Eu fiz aquele cretino! Dei a ele todas as chances. E o que ganhei em troca?’ – e suspirou – ‘Aquela maldita chave de roda era um símbolo para mim, entende?’ Gomes não disse nada. Abriu de novo a porta. Jojoca e outro agente entraram, estendendo-lhe um papel. ‘Doutor Siqueira, por favor, nos acompanhe. Isto aqui’ – e mostrou o papel – ‘é uma ordem de prisão temporária’ – Gomes olhou para o telefone – ‘Se quiser ligar para o seu advogado... ’. O médico se levantou. Nem olhou para o telefone. Ficou parado, em pé no meio da sala, como uma criança que precisasse ser guiada. Jojoca e o agente tomaram-lhe o braço e o conduziram para fora. Gomes deixou que eles saíssem. Depois, fechou a porta do consultório. Na sala, uma paciente tinha o olhar cravado sobre ele; um olhar que o espreitava, incrédulo, por detrás de lentes grossas. A recepcionista perguntou com a voz trêmula: ‘Meu Deus! O que houve?’ Gomes olhou para ela. Outra desempregada. Encolheu os ombros e disse sem querer piorar a situação: ‘Coisa de rotina. ’ – lembrou-se, então, de um detalhe – ‘Desmarque as consultas. O doutor vai estar afastado por uns tempos. ’. Desceu o corredor na direção do elevador. O sol do meio dia vazava por uma grande janela ao fundo. Manhã bonita. Digna de se ver. Com olhos bem abertos. |
|---|
| ________________________________________________________________ |
|---|
|
Muito bom. Marcos, 10/04/2009 |
| ________________________________________________________________ |
|---|
|
Este é o cara!!! E este é o texto do momento. muita dedicação, porque vamos trabalhar muito hein, Gazineo. Abração Nando, 12/12/2008 |
| ________________________________________________________________ |
|---|
|
O texto é bom. Fernando, 14/11/2008 |
| ________________________________________________________________ |
|---|
|
Realmente um escrito muito interessante. Gostei muito. Parabéns pelo tempo devotado nessa escrita. Abração! Visite meus escritos, são poucos, mas com o passar do tempo pode aumentar http://recantodasletras.uol.com.br/autores/jamelcarlos Mariana, 15/09/2008 |
| ________________________________________________________________ |
|---|
|
Muito bom; eu nem imaginva que seria seu (...) o assassino Mariana, 15/09/2008 |
| ________________________________________________________________ |
|---|
|
Realmente muito envolvente, cativa de forma estonteante cada parágrafo de frase... muito bem bolado este documentário sr. gomes!!! merece tentar entrar para o clã dos reds do brooklin... os melhores investigadores do mundo fazem parte dessa elite... vou fazer um segundo teste pra poder entrar novamente e divulgar os meus trabalhos pelo menos para a América do Sul!!! Nickson, 02/09/2008 |
| ________________________________________________________________ |
|---|
|
Muito bom, desde o começo eu já sabia quem o assassino era....! Juliana, 30/08/2008 |
| ________________________________________________________________ |
|---|
|
Gostei, muito legal! E o inspetor gomes, é um dos mais inteligentes que já vi! Igor Firmino, 18/06/2008 |
| ________________________________________________________________ |
|---|
|
Interessante e bem escrito. Gostei. Fernando Brandi, 23/06/2008 |
| ________________________________________________________________ |
|---|
|
Parabéns, você é muito talentoso. Lucas Martins, 12/06/2008 |
| ________________________________________________________________ |
|---|
|
Bom, realmente. Parabéns ao autor. Roberta Valério, 07/06/2008 |
| ________________________________________________________________ |
|---|
|
Não há mais o que comentar, cara. O Gazineo sempre nos surpreende nas suas entrelinhas. Conduz o leitor a envolver-se na própria história, tira-nos o fôlego e sabe fazer o desfecho maravilhoso! Teu texto está óitmo, Alexandre. Continuas a nos brindar com excelentes contos. Parabéns. Cláudio Quirino, 07/06/2008 |
| ________________________________________________________________ |
|---|
|
Não há muito o que falar, o conto está maravilhoso. Parabéns, Alexandre. Josué de Oliveira, 06/06/2008 |
| ________________________________________________________________ |
|---|
|
Um conto longo, mas sutil e que nos conduz até um surpreendente e ao mesmo tempo refinado finale, construído sobre uma trama intricada e bem amarrada. L.C. Lima, 04/06/2008 |
| ________________________________________________________________ | ||
|---|---|---|
| Comente este texto | aaa Avalie este conto: | |
|
|
|
|---|
| Mais contos do Inspetor Gomes | |
|---|---|
| Obituário |
| Receba as atualizações do Beco em seu e-mail (apenas um por mês!). Clique aqui. |
Beco do Crime ® todos os direitos reservados