![]() |
É o mistério!!! Gavião Bueno, empolgado após ler o livro |
| _______________________________ |
|
Domingo, duas e meia da tarde. Engarrafamento na Visconde de Pirajá. Ipanema saindo para almoçar. Hora estranha para encontrar o Doutor Valdini. Mas o Doutor Valdini me esperava em frente ao Hotel Vermont. Era baixo, pálido e tinha um bigodinho ridículo. Mais de Cinqüenta. Menos que sessenta. Quando o vi, do outro lado da rua, minha primeira vontade foi a de dar meia volta. Só não o fiz porque os olhos mortos do Doutor Valdini me laçaram. Tive a desconfortável impressão de que ele sabia que era eu, me aproximando de bermudão e sandálias. Valdini vestia um blusão do tipo havaiano, que quase me fez sentir na obrigação de esbofeteá-lo. Não sou agressivo, mas qualquer um ao ver um cinqüentão com aquele bigodinho e aquele blusão turístico, sentiria a compulsão de... “Doutor Valdini?”, perguntei sorrindo. Há 25 anos sou profissionalmente falso. “Doutor Azevedo, acertei?” Trocamos apertos de mão. Ele é um viado velho: 1 x 0. “Vamos, a reserva já está feita.” Passamos a caminhar. Por alguns minutos, Valdini pôs o braço sobre o meu ombro. 2 x 0. “É um horário meio estranho para falarmos de negócios. O senhor poderia ter ido ao meu escritório...” “Como lhe falei, estou de férias. E só em pensar em ir ao Centro, sinto náuseas!”, 3 x 0. “Como preferir. Mas confesso que só resolvi vir porque o Doutor Guedes o indicou como um cliente Entramos em um restaurante na Barão da Torre. Era um lugar caro. Muitas mesas vazias, ar condicionado no ponto e música tranqüila. Burt Bacharach. Valdini cumprimentou os garçons pelo nome. A nossa mesa ficava num canto, estrategicamente afastada de todas as outras. Eu ia matar o Guedes! “O que iremos beber?”, Valdini perguntou. Aquele iremos fez crescer a minha necessidade de esmurrá-lo. Falei que beberia qualquer coisa. Ele disse que eu deveria experimentar o licor da casa. Dei de ombros. Valdini chamou o garçom. Se ele repetisse aquele iremos, eu não... “Nós iremos beber licor. Traga o de sempre.” Notei um sorrisinho de deboche no rosto do garçom. Ou seria impressão minha? “Doutor Valdini, o Guedes não entrou em detalhes e eu gostaria de saber logo do seu problema para que eu veja no que poderei ajudá-lo.” “Antes eu gostaria de dizer por que resolvi contratá-lo.”, ele fez uma breve pausa para que o garçom servisse os nossos drinques. Depois, prosseguiu: “Primeiramente, porque sempre confiei no Guedes. E ao ver o seu currículo...” Há 25 anos sou elogiado e pensei nas Heterokontophytas. O que era um prazer no início da minha carreira de advogado, agora virou um desconforto, uma chatice. Já não tenho mais paciência para clientes elogiando o meu trabalho e esperando, no fundo, que eu não os decepcionasse. Nessas horas, eu me desligo. E naquele momento, pensei nas algas do tipo Heterokontophytas, sobre as quais, horas antes, eu havia assistido a um documentário no Discovery. As Heterokontophytas são encontradas em vários tamanhos, desde os microcópicos até os gigantescos. Podiam ser encontradas tanto no oceano, quanto na água doce... “...para um caso na envergadura do meu, acredito que um profissional deva ser acima de tudo discreto e o senhor...” ...elas podem ser encontradas tanto em água salgada, como em água doce. “...o senhor deve compreender que o que tenho a lhe propor é um caso delicado...” ...entre este grupo de algas, encontra-se também as chamadas diatomáceas, que podem ser encontradas como pelágicas e bentónicas e são facilmente encontradas praticamente em todos os lugares do planeta... “...e quando o Guedes me revelou os seus outros talentos...” Tooooooooooiiiiiiii!!!!! Antes que alguém pudesse estalar os dedos, quando dei por mim, a minha atenção estava toda voltada para o Dr. Valdini. Um sorrisinho cretino esticava o seu bigode ridículo. “Mas por que a surpresa? O seu passado já é do meu conhecimento.” Eu havia cumprido onze anos por ter matado um sujeito. Na verdade, eu havia matado um monte deles, mas como trabalhava para gente graúda, bons advogados conseguiram cegar a justiça. Comecei matando vagabundos de terceira. “E é de um profissional do seu gabarito que estou precisando.” Quando comecei a matar vagabundos de primeira, a sociedade me tirou de cena. “Estou disposto a pagar quanto o senhor pedir. Não medirei esforços para o...” “Qual o nome dela? Da vítima? Posso saber?” “Oooh lalá”, 5 X 1, “O senhor é mesmo rápido no gatilho. Vejo que não estou mesmo perdendo o meu tempo.” “Quanto?” “Perdão?” “Quero que o senhor me mostre o quanto está surpreso comigo.”, meti, à queima-roupa. “Certo.”, Valdini sorrindo e limpando os lábios com um guardanapo, “Entendi. Você quer saber em termos de números.” “Números são o meu idioma.” Valdini soltou uma gargalhada efeminada que me deu nos nervos. 16 x 1.Depois, disse, como se estivéssemos em um seriado de tv: “O senhor é um homem peculiar, senhor...” “Números, por favor.” “Dez mil dólares para começar.” Era muito mais do que eu esperava. Mas estávamos tratando de negócios e soltei um “Razoável.” Toooooooooiiiiii!!!!! O risinho que surgiu na cara exótica de Valdini me preocupou. Não era mais o Valdini-maricona-velha que estava ali. Eu já havia visto aquele riso, combinado com um olhar enigmático. Eu já havia visto a mesma equação no rosto de muitos canalhas. Aquele olhar, somado aquele sorriso. Eu sabia que o resultado significava que Valdini talvez não fosse quem eu estava pensando e teria que tomar cuidado. E suas próximas palavras vieram confirmar tudo isso. “Razoável? Mas meu caro doutor, o senhor não está em condições de recusar o que estou lhe oferecendo.” Ele examinou os meus olhos e os meus olhos o examinavam. Meus olhos queriam saber como ele havia descoberto. “O Guedes me revelou que você está na pior.”
“Parece que você está devendo dinheiro ao Doutor Guedes. Estou certo?” A ele e a uma matilha faminta, todos com altos pedigrees. Parece que o resto da minha vida o meu destino seria lhes servir de ração. Continuei encarando Valdini em silêncio, pois Valdini ainda tinha mais o que falar. Valdini era agora o novo integrante da matilha. E a idéia de ficar com o rabo preso com um muquirana que ainda dizia “Oooh Lalá”, me revirou o estômago. “Por que ele está devendo dinheiro a mim.” Valdini soltou uma gargalhada que também não tinha nada a ver com o Valdini de antes. Neste momento, percebi que estava fodido. Só não imaginava o quanto. Pois de repente, Valdini ficou sério e perguntou: “Você quer saber o nome dela? Helena.” *********** Helena me recebeu com um beijo curto. Mulheres sabem ser econômicas em situações que requerem contenção. Por isso, não perdi tempo: “O seu marido me procurou.” Ela me ajudou a tirar o terno e parou para fitar meus olhos. Estávamos no motel que costumávamos ir, na Barra, e ela estava visivelmente chocada. “Você conheceu o meu marido?”, os lábios cor-de-rosa tremiam. “O Guedes me apresentou.” Helena afastou-se de mim. O terror havia modificado tanto o seu rosto, que parecia ser de outra mulher. Não do meu bombomzinho de leite. Não a mulher que me fez trair a minha resolução de nunca mais me envolver com as casadas. “Mas isso está parecendo uma trama macabra.”, ela continuou me olhando, esperando que eu dissesse: calma, meu amor, não é tão grave assim. Mas continuei em silêncio. O pânico tomou conta de Helena. “O mesmo homem que nos apresentou. Agora, lhe apresenta o meu marido.” Sentei-me na enorme cama e fiquei olhando para ela. Helena andava de um lado para o outro. E meus nervos pulsam quando há uma mulher andando de um lado para o outro na minha frente. “O Guedes é um bom filho da puta! Apresentar ao marido traído o cara que está comendo a mulher dele é típico do Guedes.”, falei. “Já sei! Meu marido quer o divórcio e o Guedes indicou você?” Helena começava a se despir, enquanto esperava pela minha resposta. Olhou para mim, estranhando a minha demora. Eu, na verdade, estava apreciando o seu corpo. Como era lindo o meu bombomzinho de leite! Helena era loura e de olhos claros. “Não faço a área familiar.Sou criminalista.” “Então, por quê?” Helena já estava nua, sentada na cama e olhando para mim com os seus olhos de súplica. E tive que evitá-la. Não dava mais para voltar atrás. “Na verdade, ainda não nos falamos direito. Só vou saber ao certo o que ele quer amanhã. Agora vamos nos divertir.” Comecei a tirar a minha roupa. Helena deitou-se, como um paciente se preparando para a cirurgia. “Só pode ser o divórcio. Aquele cretino pensa que vai ficar numa boa. Ele não perde por esperar!” Parei na beira da cama e fiquei ali por dois, quatro, seis, dez segundos...Queria apenas olhá-la. Como era lindo o meu bombomzinho!!!! “Quero também aquele quarto-e-sala no Leme. Eu alugo para complementar a renda, porque eu... você não vai tomar um banho?”, ela perguntou ao me ver subindo na cama. “Você sempre toma banho antes de... mas que cara é essa?” As algas do tipo Heterokontophytas, assim como as outras espécies de algas, também produzem a algina, substância gelatinosa, extraída das Feoficias e tão importante na fabricação de tecidos. “Nossa, você está com uma cara! O fato de Valdini ter lhe procurado abalou mesmo você, meu amor!” Sua importância para a indústria farmacêutica também é notável... “Há mais algo errado, meu amor? O que foi?” Isso sem falar da sua importância para a biosfera... “Mas o que está acontecendo? O que é isso...? Elas foram as primeiras a produzirem oxigênio em nosso planeta.
As Heterokontas também são conhecidas como Xantofíceas e são seres unicelulares, platônicos e com plastos verde-amarelados.
|
|---|
| ________________________________________________________________ | ||
|---|---|---|
| Seja o primeiro a comentar este texto: | aaa Avalie este conto: | |
| Obituário |
|---|
| Receba as atualizações do Beco em seu e-mail (apenas um por mês!). Clique aqui. |
Beco do Crime ® todos os direitos reservados