por Valdeci Garcia




Quando me mudei para esta casa há mais de 30 anos, ainda não havia ocorrido nenhum crime no beco. De minha janela, que dá de frente para ele, eu via, quando muito, casais de namorados disputando espaço com os gatos à luz do luar. Mas, de uns 5 anos para cá, as coisas mudaram de tal forma, que fui obrigado a instalar uma grade de ferro na janela e a colocar vidros foscos, para proteger a privacidade e a saúde de minha família. 

Perdi a conta de quantos tiros e pedidos de clemência já ouvi no beco pelas madrugadas afora. Não me meto, porque não tenho nada a ver com isso: limito-me, depois, a comentar em monossílabos com os vizinhos a violência em nossa cidade e no nosso beco. Ao ouvir os gritos e os tiros, quando muito espio discretamente sob a proteção da noite. Cheguei a ver, noite dessas, o rosto do assassino, quando ele estuprava uma garota e, depois, a estrangulava com o cinto. Posso afirmar uma coisa: nunca me esquecerei daquele rosto, principalmente dos olhos torvos e da cicatriz, que toma de lado a lado o queixo daquele homem.

Minha filha sai quase todas as noites.

– Tome cuidado, não dê trela para qualquer um – disse-lhe ontem, ao vê-la se aprontar para a noitada.

– Está tudo bem, pai, meu namorado me protege – respondeu-me depois de me dar um beijo na testa e pegar a bolsa para sair.

– Eu quero conhecer o seu namorado...

– Qualquer dia desses...

Hoje de manhã, minha filha entrou contente na sala, e me interrompeu a leitura do jornal:

– Pai, trouxe o Alcebíades, o meu namorado!

O rapaz saiu se adiantou e se postou diante de mim com a mão direita estendida. Olhei para ele. Esforcei-me para acreditar que eu delirava. Na minha frente estava a cicatriz medonha, os olhos torvos; um feixe de energia negativa: o assassino do beco!

Saltei da poltrona. Estaquei. Encarei o bandido e seu gilvaz. Ele ficou me olhando, querendo entender o que se passava. Minha filha ficou boquiaberta com a minha atitude.

– Já o conheço... – balbuciei.

– Que bom, pai! De onde? – disse minha filha, com a felicidade estampada no olhar.

Ele olhou de soslaio para a janela e entendeu tudo. Recolheu a mão que esquecera no ar. Quis sair.

– Espere, quero falar com você um pouco – falei resoluto.

Ele parou e ficou esperando. Mandei minha filha deixar a sala – ordem a que ela obedeceu de bom grado, porque pensava que eu queria conversar com o rapaz sobre esses assuntos que todo pai trata com o pretendente da filha.

– Quero falar com você à meia-noite, no beco.

– Marcado; é o meu lugar – respondeu ele, escandindo a palavra “meu”. Lançou-me um olhar indecifrável e saiu, deixando a porta aberta.

                       ****

Silêncio no beco. A lua enfeitava a cena: eu com o meu revólver calibre 32 apontado para ele. Ele, com um sorriso sardônico, parecia não acreditar que estava sendo ameaçado por um octogenário.

– Que faz com essa merdinha de revólver? – zombou, enquanto levava a mão às costas para pegar sua arma.

– Não quero você metido com minha filha – falei, e devo ter feito cara de desagrado, porque minha voz tremeu e denunciou que eu tinha medo.

– Ela vai acabar aqui, como todas as outras – ele ameaçou com a voz firme; voz que parecia se materializar e tomar o ar, meu corpo, minha casa, o beco, a lua; tudo. – E abaixe esse revólver de brinquedo, senão vou fazer você cagar ele! Onde já se viu! Meu couro é duro, velho; isso não fura não...

Atirei no olho dele.

– Ainda bem que você me avisou, porque o olho é o caminho mais fácil para o cérebro! – Era a minha vez de zombar (e fiquei feliz comigo mesmo, porque minha voz saíra firme).
Ele ficou em pé ainda por alguns milésimos de segundo, talvez sem acreditar no que lhe estava acontecendo. Depois, caiu para trás e ficou inerte numa poça de sangue.

Guardei tranqüilamente meu revólver. Passei pelo cadáver e saí do beco. Ao entrar em casa, ouvi os gatos miando lá fora. Depois, o silêncio. Fui ao banheiro, lavei as mãos e o rosto. Voltei para a sala. Guardei a arma em cima da estante. Podia ouvir lá nos quartos o ressonar de minha família, que dormia em segurança. Escancarei a janela de frente para o beco e fiquei olhando o defunto. Respirei aliviado: seria mais um crime sem solução. Mas, a partir de então, o beco voltaria a ser somente da lua, dos namorados e dos gatos. 

P.S.: Faz 40 dias que matei o namorado de minha filha. Como eu imaginava, ninguém investigou o homicídio. Enganei-me, porém, quanto à afirmação de que o beco seria novamente da lua, dos namorados e dos gatos. Sei que fiz a errônea assertiva ainda envolvido emocionalmente pelo meu crime. Concordo com o que disse o poeta Manoel de Barros: “o beco é uma instituição que une o escuro do homem à indigência do lugar” e “o beco é um lugar que eleva o homem até o seu melhor aniquilamento”. E assim é: o beco continua a ser um lugar de indigência e de aniquilamento. Cheguei a esta conclusão ontem de madrugada, ao ouvir novos gemidos e tiros no beco. Vi pela janela um homem matando uma mulher depois de estuprá-la. Mas, para azar dele; resolvi não ser um mero espectador passivo. Digo isto porque, adivinhando que o beco do crime nunca deixaria de ser o que sempre fora; comprei uma pistola calibre 45 com silenciador – não quero ser obrigado a acertar no olho do marginal sempre, e também não pretendo acordar a vizinhança com meus disparos. E agora, depois de cada crime, o julgamento virá de imediato: matou, morre pela minha arma! Estou gostando de minha nova função...

 

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Perfeito... Um texto enxuto e muito objetivo, um dia também chego lá rsrs Abraços!

Eduardo Justi, 03/07/2009

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Nossa... muito fera, adorei

Brenda, 16/05/2009

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Adorei, precisamos agir quando é necessário.

Elza Maria Ribeiro, 09/05/2009

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A injustiça fomenta a revolta. Parabéns, Valdeci, um conto muito bem escrito.

Mauricio Novais, 08/04/2009

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Parabéns, o conto é maravilhoso .Preciso fazer um conto policial pra a escola e o seu me inspirou de uma forma fantástica, obg.

Leticia Sales, 04/04/2009

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Parabéns vou trabalhar com meus alunos na aula de leitura

Tati, 03/03/2009

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O conto é assustador, iguala heróis e bandidos, banaliza a violência na medida exata da realidade. Parabéns Valdeci seu texto mexe com a gente!

Maristela, 02/02/2009

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Olá, trabalhei com este conto na aula de português! E tirei nota 10!!!

Laninha, 26/11/2008

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Essa história realmente é de arrepiar. Parabéns! Você fez exatamente o que um pai de família faria para resguardar o seu lar e proteger uma filha das garras de um monstro como esse.

Elenir Alves, 20/11/2008

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Se existissem mais vingadores, o crime diminuiria para os inocentes. Pena que ele não atira antes do crime ser concretizado.

Rogelnei Francisco Alves, 31/10/2008

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É o mocinho se nivelando ao bandido, como conto... bom

Beth Arpino, 26/10/2008

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Nossa esse conto foi muito bom adorei esse herói, bem familia.

Carla Torres, 24/10/2008

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Eu achei muito assustador. Essa hitória é aterrorizante!

Darise Morona, 26/09/2008

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Nossa, foi muito louco esse conto, é demais.

Murilo, 28/08/2008

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Gostei muiito desse conto! muito massaaa mesmo, ótima história.

Acácia, 24/07/2008

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Já sou fã deste autor, porque a cada texto ele consegue se superar. Assim, eis mais um conto bem urdido - e com um final entre poético e cruel. Nota 10!

Karina Silva, 21/07/2008

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Quanto a esse, já tive a oportunidade de lê-lo de antemão, mas com a estética adquirida na página do site a leitura se tornou mais interessante. Grande narrativa, entremeada por conflitos pessoais e individuais emergentes. Desfecho surpreendente, deveras. Parabéns, Valdeci.

Cláudio Quirino, 18/07/2008

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Conto bem dark... gostei bastante.

Josué de Oliveira, 16/07/2008

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Invejável. Curto, direto, incisivo e o final, se não pertubador, ao menos reflexivo. Gostei muito do texto, Valdeci.

L.C.Lima, 16/07/2008

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Uauu!! Impresionante, fiquei supreso com que esse cara faz agora!

Igor Firmino, 15/07/2008

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Bom texto que eleva, com inteligência, o 'Beco' a protagonista da estória.

Alexandre Gazineo, 15/07/2008

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História bem encadeada que traz um "Héroi" moderno. Boa idéia.

Lília Pires, 13/07/2008

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