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O moleque está espalhado pelo chão. Grande parte do conteúdo da sua cabeça encontra-se agora no muro do pequeno Beco. Ah, moleque. Como eu gosto de você! Vinte anos atrás. Eu não tinha a porra dessa barriga, e conseguia segurar o pau sem ter que me abaixar. “Quer soltar pipa, seu Nélio?”. É claro que eu queria soltar pipa. Mas queria ainda mais deitar na cama da mãe dele, aproveitando que minha vida como inspetor de polícia deixava minhas tardes livres, ao passo que o marido dela, como balconista de padaria, não possuía tal luxo. Mas era eu começar os trabalhos e o moleque chamava. “Deixa ele para lá, Nélio. Embica logo essa pipa aqui, vai.” Mas não. Você pode dizer que sou um otário — e olha que você nunca viu o tamanho da bunda de Carminha, era de tal estatura que muito negão achava que o dele não chegava lá. O moleque, no entanto, era demais. Talvez porque nunca tive irmãos ou costume de brincar com outras crianças, nem tive saco para arrumar esposa e ter filhos, direitinho. Mas eu adorava as horas que brincava com ele no pátio da vila onde morávamos. E juro que não era por causa dos seus olhos, tão parecidos com os meus que as fofoqueiras da vila já faziam troça. A voz do Brandão me tirou do transe. Mostrou um revólver caído no chão, perto da mão do moleque. Queria Eu acendo outro cigarro e me lixo para a tosse; eu nunca quis viver para sempre, você quer? Mais para a entrada do Beco uma moradora presta seu depoimento para um branquelo mirradinho, que deve achar que ser polícia é andar com pistola na cintura e proteger a comunidade, enquanto mexe com as garotinhas. “É, seu guarda, eu escutei o garoto gritando sim. Ele estava com a arma na mão, então não tive coragem de abrir a porta. O que ele gritou? Berrou por ajuda, chorando, dizendo que o Kid Magrinho estava atrás dele. Chamou seu Nélio, repetindo sem parar que ia morrer. E depois? E depois só ouvi os pipocos estourando porque debaixo da cama era que eu não podia ver nada, não é?” Os pipocos estourando. Estava assim resumida a morte do meu moleque. Lá vinha o maldito rabecão. E o temido saco preto. Nem pisquei e já havia uma vela ao lado do corpo. A brasa do meu cigarro caia no sangue no chão. Sangue do meu moleque. “Nélio, ele tá porrando minha mãe de novo”. Eu já tinha um pouco de barriga, e o garoto já era maior do que eu. Não sei se encolhi, ou se ele Brandão me rodeava igual urubu. “O que aconteceu, Nélio?” Será que ele já não estava vendo? O moleque estava mexendo com drogas, isso era verdade. Mas e daí? Eu também vendia minhas paradinhas. Não vem condenar a gente, não! Você não cresceu nesse bairro. Talvez tenha brincado de fazer gaivotas quando criança. O moleque não. Nem eu. Em nossas brincadeiras, podíamos até dobrar papel, mas era para enrolá-lo e puxar uma carreira. Eu ainda consegui entrar para a polícia, mas você já pensou o que ganha um polícia? Eu moro de aluguel, companheiro. Todo dia dez a coroa fedorenta de baixo toca aqui. O que dou a ela, um sorriso? Quando estava na ativa, ainda me virava. Sempre vinha um qualquer. Mas aposentado? Tive que atirar para outros cantos. É a lei da sobrevivência. Mas nunca me envolvi com traficante bundão. Pegava minhas paradas na fonte, e não devia a ninguém. O garoto não teve tanta sorte. Seu melhor amigo? Kid Magrinho, o filha da puta que despejava pó feito chuva sobre as ruas desse bairro. Você talvez tenha acreditado em Papai Noel. Tem muitas chances de até uns oito anos ter ganhado dois presentes, um do pai e outro do bom velhinho. Não nesse bairro. Aqui o Papai Noel era magro, andava sem camisa e com duas pistolas arriando o bermudão de veludo. Mas distribuía presentes, o desgraçado. Uma brizola aqui, um charutinho ali. De vez em quando um tênis, uma garotinha bonitinha que transforma a boca até num roto ruter por um punhado de pó. Duvido que você ficava de fora. “Vou matar o tal do Kid Magrinho agora, Brandão”. “Tá maluco, Nélio? A gente pega ele.” “Pega porra nenhuma. Você é um bosta, Brandão. Eu que vou pegar o filha da puta. Pegar e jogar no inferno”. Brandão não era um bosta, afinal. Quando saí da vila, ele veio atrás, com outros homens. Entramos na favela arrepiando e não deu nem tempo para o fogueteiro ver a bala que meti em suas costas. Tinha uma fila na frente da boca, a porra de um barraco que não agüentava um sopro. Esteve sempre ali, e eu sempre soube que Kid Magrinho estava lá dentro. Por que nunca tinha me mexido para pegar o cara? Por que eu sou um bosta. Por que eu fazia meu dinheiro, tranqüilo. Foi preciso acontecer com o garoto... Foi preciso mexer comigo. O policial fazia sinal para seus homens, mas eu não queria saber de porra nenhuma. Saí largando o dedo pelo lado de fora mesmo, e logo todo mundo metralhava o barraco. A galera da vila saiu a galope, teve gente até que rolou morro abaixo. Mas não o esqueleto desgraçado. Esse ia amanhecer na geladeira. Aos pedaços. “Pára, pára, Porra”. Brandão gritou por uma eternidade até que as metralhadoras pararam de cantar. Do barraco só havia sobrado a parede dos fundos, e umas cinco ou seis pessoas jaziam no chão. Um deles tinha a mão levantada. Andei até lá e observei o rosto esquelético, o corpo tão fino quanto o das fotos dos africanos em guerra, imolados pela fome. Agora está todo furado, e ele não tem forças nem para murmurar. O único som vem de um ferimento na garganta. Pelo assobio irregular e pelas borbulhas de sangue, é por ali que respira agora. Sinto meu tênis escorregar. Estou pisando no sangue do infeliz, que escorre do corpo esburacado. Igual ao sangue do meu garoto. Que estava vivo há alguns minutos. Eu tinha acabado de acender o cigarro. Não devia, mas peguei o desgraçado só de raiva do maço que havia amassado e jogado no lixo. O acendi e o gosto era do arroz estragado que eu tinha jogado fora na mesma lixeira. Não me importei. Me importei, isso sim, com os gritos do beco lá embaixo. O moleque. Kid Magrinho vinha para matá-lo. Pulei rápido sobre a cama e pequei a pistola na gaveta do criado-mudo. Rápido? Rápido eu seria há quinze anos. Agora, gordo e com mais de sessenta, foi igual a um saco de merda que eu pulei sobre a cama, espalhando banha para todo lado. A porra do estrato quebrou e fiquei emborcado nas madeiras estraçalhadas, tal qual uma baleia em Copacabana. Demorei uns três minutos para conseguir descer os dois lances de escada para meu apartamento, enquanto meu coração subia, mas não encontrava espaço para sair, entalando na garganta. O garoto não parava de gritar. Daria tempo? Estremeci o prédio com minhas passadas e pulei para o Beco. O moleque estava só. Olhou para mim com um sorriso e seus olhos eram duas lagoas de águas negras. “Cadê o Kid Magrinho?” “Mandou lembranças, coroa. Ele não gosta de concorrência”. Ele levantou a arma, mas não tinha o menor traquejo, o coitado; teve tempo de errar três vezes até eu apontar a minha e acertar um único tiro em sua testa. Um pequeno furo acima dos olhos, um enorme buraco na parte de trás da cabeça. O meu guri no meio da rua. Morto. Kid Magrinho tentava falar, mas só conseguia borbulhar mais forte. Aquele era o verdadeiro assassino do meu filho. Brandão aponta a pistola, mas eu seguro sua mão. Ficamos observando uns bons dois minutos até as bolhas cessarem e os olhos do traficante se transformarem em bolinhas de gude. Começo a tossir de novo, e sinto o gosto de sangue na boca. Mesmo assim, acendo o cigarro. Estou me fodendo para meus pulmões. |
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É um conto envolvente, de linguagem crua e, surpreendente pela sua aspereza, e com um final inusitado, muito bom gostei! Suzi, 11/10/2008 |
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...e, não fosse o Moleque estendido no chão, a fúria que ronda, à espera, ficaria apenas nas baforadas... mas "olhos iguais" e todas as mensagens subentendidas florescem na linguagem e nas figuras, dando ritmo e agradabilidade ao conto. Yes...nós temos fogo para atacar! E retratar o real, dentro da ficção. Abraço. Veronica de Nazareth-Noic@, 02/10/2008 |
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“Reminiscências” afirma, sem margem a dúvida, que o Brasil tem hoje um grande autor policial. Esteves trafega pelo gênero com habilidade ímpar. Habilidade que não corteja a delicadeza. Seu texto é cru, cruel, fedorento. Mergulha na desgraça e desilusão humanas, não pelo prazer da pura escatologia, mas sim para, quem sabe, encontrar alguma redenção. Como Dostoievski tentou com Raskolnikov, como Raymond Chandler buscou com Terry Lennox em “Um Longo Adeus”. Esteves é tributário desses mestres, mas com eles não se confunde. Tem seu próprio caminho e nós temos a sorte de poder ler seus textos cheios de universalidade e brasilidade. Alexandre Gazineo, 26/03/2008 |
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O mérito do conto repousa na linguagem descontraída e engraçada, sem ser descuidada na narração, capturando a atenção até o fim... muito legal. Joana Valdez , 19/03/2008 |
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Acho que vou parar de fumar... rrsrs. P. Miranda , 19/03/2008 |
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Gosto de contos no qual sou surpreendido, como ocorreu aqui. Esperava uma coisa, e era outra totalmente diferente. Parabéns ao autor. Iuri Lapendi , 21/02/2008 |
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