E aqui estou eu, sentado na sala de minha empresa e tomando minha garrafa de Whisky. Minha não. Nossa. Pois apesar deles estarem mortos, eu não posso deixar de considerar que ela pertenceu aos meus sócios também. Ela era a nossa “garrafa especial”, que sempre usávamos para comemorar alguma vitória importante.
Do outro lado da sala, a foto de quando nos reunimos pela primeira vez e criamos nossa empresa. Sérgio, Mauro e eu. Quem diria que faz apenas 5 anos? Sabíamos que tudo daria certo e não havia nada no mundo que pudesse nos impedir. Nosso pequeno escritório no Centro não media o tamanho de nossa ambição e de nossa amizade.
Melissa abre a porta e me pergunta se está tudo bem. Eu disfarço minha vontade de gargalhar e digo que sim. A cena para ela deve ser bem conveniente para mim: esparramado numa cadeira, segurando um copo com bebida, o olhar soturno... perfeito para quem viu dois sócios e amigos morrerem num assalto.
Não poderia dizer a ela que fui eu quem os matou.
O sorriso que ela me lança de simpatia simplesmente me hipnotiza. Melissa, a bela Melissa, nossa secretária, depois minha amante e, finalmente, minha esposa. Como será que ela se sentiria se soubesse que é a herdeira de uma sociedade que terminou com a morte de dois terços dos sócios? Não sei o motivo, mas pensar nisso me fez ter uma vontade louca de rir.
Como a coisa chegou a esse ponto? Éramos muito amigos e lembro de quando abrimos pela primeira vez a garrafa do Whisky que agora bebo. Fora Sérgio quem propôs que ela se tornasse nossa “garrafa especial”. Ele sempre foi o mais emocional de todos, sendo Mauro o frio e calculista e – portanto – meu papel era o de equilibrar os dois.
No início, era tudo perfeito. Nossas capacidades eram complementares e nossos defeitos poderiam ser compensados pelas qualidades daqueles que estavam ao lado. Lembro-me de quando contratamos Melissa para ser nossa secretária e de como ela me fascinou desde o primeiro momento. Quando, cerca de 1 mês depois, saímos para comemorar um contrato importante que eu havia fechado, foi quase que natural para mim o oferecimento para levá-la de carro e daí para acordar na casa dela no dia seguinte foi um pulo. O que eu não sabia é que minhas vitórias seriam motivo de tanta inveja...
Tínhamos um sistema: cada contrato fechado garantia uma comissão automaticamente de 20% ao responsável. E eu sempre fechava os melhores e maiores contratos. Isso começou a gerar um diferencial na minha conta bancária e o que era uma sincera amizade começou a se tornar uma inveja cada vez mais difícil de se disfarçar.
Sinto-me um pouco culpado. Olhando da perspectiva de alguém que acaba de cometer assassinato, talvez a coisa não fosse para tanto. Eu poderia ter encerrado a sociedade e pronto. Não, não poderia. Nunca posso me esquecer de que os matei para que eles não me matassem...
Acho que a gota d’água foi quando eu e Melissa anunciamos nosso casamento. Diante dos tapinhas e sorrisos, pude perceber o mar de inveja que me cercava. Sérgio era secretamente atraído por Melissa. Ele sempre foi um conquistador, sempre teve as mais belas mulheres e ver uma mulher tão bonita quanto Melissa nas mãos de outro parece ter sido o seu ponto fraco. O problema de Mauro era outro. Ele sempre gostou do dinheiro e do poder que o dinheiro trás. Ver que eu estava fechando os melhores contratos não devia ser fácil para ele.
Conforme o tempo passava a relação foi ficando doentia e a situação insustentável. Raramente discutíamos, mas quando isso acontecia era sério. Paramos de brincar um com o outro, ficávamos mudos em nosso canto, não comemorávamos mais as vitórias e – principalmente – não abrimos nossa “garrafa especial”. Nunca mais.
Lembrar disso me faz oferecer um brinde a eles. Malditos desgraçados! Nós éramos amigos, porra!
Comecei a desconfiar dos olhares. Inclinados, evasivos. As respostas murmuradas. A decisão veio quando Melissa me apresentou a um detetive. Estava apavorada e me contou a enorme pressão que vinha sofrendo há meses.
Certa vez retornou após o expediente para apanhar um presente que havia comprado para mim. Ao entrar no escritório ouviu como Sérgio e Mauro discutiam com ferocidade a meu respeito. Sem saber que ela tinha retornado, comentavam como tinham que se livrar de mim, “nem que me mandassem para a cova”, segundo ela ouviu.
Apavorada, nada me disse. Mas sem que nenhum de nós soubesse contratou um detetive que passou a seguir os dois, em especial quando estes estavam juntos. Reunindo provas – principalmente conversas gravadas – ele preparou o relatório que me foi apresentado naquele dia. A proposta dele foi simples: chame a polícia e peça proteção.
Hah! Polícia... quem confia na polícia? Era apenas uma questão de saber quem teria contato melhor lá dentro e o que assim tivesse se daria bem. Portanto, nada havia a ser feito com a polícia. A coisa teria que ser resolvida de forma mais... definitiva.
A guerra estava declarada.
Sem que Melissa soubesse, marquei outro encontro com o detetive e contratei novamente seus serviços. Só que desta vez eu não queria mais nada de relatórios e investigações. Queria dois desses indivíduos do submundo que fazem qualquer coisa por um trocado e precisava de um intermediário que soubesse ficar de boca calada e evitasse meu contato com os marginais.
Então, ontem, quando saiam do escritório, Sérgio e Mauro sofreram o “assalto” e foram mortos. Eu estava livre.
Hoje de manhã, cancelei os compromissos para mostrar meu luto e entrei nesta sala, para brindar meus ex-sócios pela última vez com a “garrafa especial”.
Melissa entra novamente, ainda com o sorriso de antes, tentando me consolar. Tento sorri de volta, mas não consigo. Estou cansado, me sentindo um pouco culpado e acho que bebi demais. Logo atrás dela outra pessoa entra; é o detetive. Ele enlaça Melissa pela cintura e lhe dá um carinhoso e abusado beijo no pescoço. Aquilo me enche de raiva, mas eu não consigo me levantar. Algo está estranho, não me sinto bem.
Sinto-me mal e tento me levantar. Não consigo. Tento pegar o celular, mas Melissa me informa que o gesto é desnecessário, pois o veneno me mataria antes de qualquer ajuda chegar. Ela me observa enquanto aperto duas ou três teclas e então desisto, minha mão caindo sobre o colo.
Enquanto tento entender o que está acontecendo, Melissa me conta como trabalhou durante estes anos: insinuando-se para Sérgio, mas sem nunca ceder, esbanjando sua riqueza para Mauro, provocando sutilmente a rivalidade num crescente constante entre nós três. Quando tudo atingiu o que ela considerava o ponto ideal, trouxe seu amante para o jogo. As gravações, é claro, eram montagens – coisa fácil de se fazer. O último toque foi me convencer, sutilmente, a tomar o whisky da “garrafa especial”. Hoje, mais especial do que nunca.
Ela me explicou que a essa hora as pistas deixadas para que eu fosse incriminado já deviam estar sendo estudadas pela polícia. Na verdade, seria realmente trágico eu ter me envenenado depois que os marginais contratados ligaram para mim informando os problemas que ocorreram durante o assassinato encomendado. Seu amante já havia até escrito uma carta de despedida – entre outras habilidades, ele sabia copiar caligrafias – e que estava sendo deixada na mesa a minha frente.
Ela poderia bancar a pobre viúva inconsolável por um ano mais ou menos. Sairia do país, é claro, pois havia muita lembrança ruim por aqui. Contudo, como ela mesmo me disse, herdar a firma e receber a apólice do meu seguro era realmente consolador.
Começo a sentir uma dor terrível e meu corpo convulsiona sem controle. Melissa informa então que o efeito do veneno estava em seu estágio final e que iria se retirar, pois teria que treinar para demonstrar seu choque quando encontrasse meu cadáver, junto com a polícia.
E saiu, me deixando para morrer só. Estou partindo, mas sabendo que a última coisa que encontrarão será meu cadáver com um sorriso retorcido e um celular que grava, pegando as últimas palavras de uma mulher vil e traidora. Mas não posso reclamar.
Sempre gostei de trabalhar em sociedade. |