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Reginaldo Prandi Entrevista realizada por Andre esteves em 05/06/2009 |
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Paulista de Potirendaba, Reginaldo Prandi é professor titular aposentado de sociologia da Universidade de São Paulo e autor de muitos livros sobre sociedade e cultura brasileiras, além de obras voltadas para o público infanto-juvenil. É também de sua autoria o ótimo romance policial Morte nos Búzios (editora companhia das letras, 2006). |
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Você é professor de Sociologia e um respeitado estudioso das religiões, principalmente as afro-brasileiras, com várias obras sobre o tema. Como a ideia de escrever um livro policial surgiu? R: Sempre li policiais. Gosto muito. Nos últimos anos, além de sociologia e mitologia, escrevi ficção infanto-juvenil e planejava um livro de continuação do "Minha querida assombração", com os mesmos personagens, quatro crianças. Mas de repente me dei conta que as crianças tinham crescido e já eram adultos. Envolveram-se numa trama que começava com um assassinato. Assim começou. Daí veio o delegado Tiago Paixão e a história foi em frente.
R: Dos clássicos leio e releio Georges Simenon. Entre os mestres contemporâneos, Lawrence Block e Andrea Camilleri, que acho o máximo.
R: Isso é vício de um velho sociólogo. Queria mostrar alguma coisa da cidade de São Paulo que fosse pouco conhecida, com mistérios e segredos que criassem a possibilidade de se pensar os crimes do livro com um sentido orientado religiosamente. A religião é meu objeto preferencial de pesquisa. Também queria envolver os acontecimentos numa rede de preconceitos. Me esforcei para que o mais aspecto mais importante do livro fossem os homicídios e sua investigação, o candomblé do livro podia ser apenas uma desculpa para matar. Na próxima aventura de Tiago Paixão, sai o candomblé e entram as novas bruxas da New Age. Vamos ver no que vai dar.
R: Há uma guerra aberta dos evangélicos contra as religiões afro-brasileiras. Os terreiros de umbanda e candomblé, o lado fraco nessa luta, estão sendo praticamente dizimados. É uma aspecto verossímil na ficção de "Morte nos búzios". Meu atual projeto de pesquisa acadêmica se chama "Intolerância", e é sobre isso que no livro aparece apenas como um lembrete sobre o que acontece em nossa cidade e em nosso país e que, para a maioria, passa despercebido.
R: Eu vivo de meus proventos de professor titular aposentado da USP, com o privilégio de ter uma aposentadoria integral. Mas os direitos autorais representam um bom acréscimo. Conheço pouquíssimos brasileiros que podem viver só do ofício de escritor. Não aconselharia um jovem a tentar sobreviver de sua escrita sem se preocupar em ter outra ocupação.
R: A diferença fundamental é que o trabalho em sociologia, como em qualquer outra ciência, depende sempre da confirmação dos fatos. Não se pode inventar, mentir, mudar a realidade. A ficção é o contrário, o autor escreve o que lhe dá na cabeça. Também há diferenças na forma: um livro acadêmico segue uma padrão de apresentação; o leitor sabe de antemão em que partes e capítulos encontra os dados, a interpretação, a metodologia da pesquisa, os fundamentos teóricos, as conclusões. Na ficção o autor tem também a liberdade de construir o modo como quer contar sua história. Tem diálogos, não tem? A história se passa num dia, num mês, ao longo de uma vida? Onde as coisas acontecem? E assim por diante. São duas experiências muito diferentes.
R: Meus primeiros trabalhos fora das ciências sociais foram para o público infantil. A idéia era a de contar para crianças mitos afro-brasileiros presentes no meu "Mitologia dos orixás", que é um livro de pesquisa. Tive ajuda de amigos escritores, especialmente de Heloísa Prieto, uma grande contadora de histórias. Foi um novo aprendizado. Depois de publicar duas dezenas de livros acadêmicos, dirigidos a um público especializado e diminuto, tive que aprender tudo de novo. Sempre me encontro com crianças leitoras de meus livros a convite de escolas e feiras de livro. Ainda continuo aprendendo com elas.
R: Eu tenho o privilégio de ser um autor da Companhia das Letras, que publicou meus últimos nove livros e deverá publicar os próximos, como eu desejo. Publiquei também por outras editoras, mas em nenhuma encontrei o clima de amizade e colaboração e as condições de trabalho que a Companhia oferece. Cada livro é trabalhado em todos os seus pormenores com os editores de texto e a produção gráfica. Tudo se discute, o autor é ouvido em todas as etapas, os editores se preocupam com cada palavra, com cada imagem, mas as decisões finais são sempre do autor. Aprendi muito com Heloisa Jahan, minha editora para livros adultos, e com Lili Schwarcz, que edita meus infantis. Adoro trabalhar com Helen Nakano, que produz os infantis, mais trabalhosos porque envolvem ilustração, fotografia, impressão a cores. Mas não somente elas me ajudam. Muita gente na Companhia lê meus originais e dá palpite, até vendedores. Além disso, a Companhia paga pontualmete, o que não é generalizável. Tudo que eu desejo a um jovem autor é que ele goste de seu trabalho e tenha uma boa editora.
R: Que esteja sempre preparado para reescrever seus livros muitas e muitas vezes. Um livro nunca está pronto enquanto não é impresso. Uma nova versão sempre melhora um original. E é bom ter vários leitores que acompanhem a redação, de preferência com cumplicidade e com torcida. Também é preciso saber ouvir as críticas, pesar os palpites e não ter medo de mudar. Mais que tudo isso, o autor tem que gostar do seu livro, tem que brigar por ele. |
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