...a última palavra em livros de suspense.
Seu Calos, porteiro do prédio do autor.

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— Documento e habilitação, faz favor.

O cara — dos seus quarenta e poucos anos — meteu a mão na carteira recheada de papel amassado e puxou o documento em pior estado que eu já havia visto na vida. A carteira de habilitação, desfigurada por círculos secos de uma substância escura, mal permitia que se identificasse a assinatura.

Fui até os outros policiais que faziam a blitz comigo.

— Aí sargento, documento atrasado há cinco anos; não dá nem para ler a data de vencimento da habilitação.

— Vê lá o que tu arruma, Amarildo — disse o sargento Wagner, antes de mandar parar outro veículo.

Olhei para o carro que eu abordei, por ordem do sargento: uma Fiat Prêmio duas cores (vermelho na porta direita e no capô, preto no resto), ano sabe lá deus, adornado com ferrugens em toda a extensão da barra da carroceria. O cano de descarga balançava a cada saída de fumaça, batendo no chão.

Algo me dizia que daquele cliente não sairia gorjeta.

— E o seguinte — o discurso já era padrão, criado pelo sargento e passado para todos os soldados que trabalhavam com ele. — Tu tá todo errado. Documento atrasado, habilitação vencida. Vamos ter que rebocar o carro.

O condutor tossiu, engasgou e teria ficado verde se possível. Finalmente começou a contar a história de praxe:

— ...tô desempregado, sem dinheiro, meus filhos...

— Ô cidadão, de história de derrota já tô legal.

— Não dá para quebrar o galho, só dessa vez?

— Sou preto, mas nem por isso macaco. O que tu pode fazer pela gente aí?

— Como assim?

Porra, ou o cara era lesado ou fingia muito bem. Olhei para o lado e os outros PMs já estavam fazendo renda. O sargento me deu uma olhada de esguelha, antes de voltar para o motorista da vez. Eu tinha três meses de polícia, um no esquadrão dele e, segundo as suas palavras, “estava demorando a me adaptar”.

Enfiei novamente o rosto no veículo. O estofado estava todo rasgado. Latinhas de refrigerante e objetos similares cobriam todos os lugares possíveis. No banco da frente, um bonito galeto ainda saindo fumaça estava embrulhado em papel transparente, tendo ao lado uma coca-cola de dois litros.

— Se não pode fazer nada, vamos rebocar — pequei o rádio na cintura. — Aí Telmo, já tá vindo com o reboque?

Telmo era um dos policiais que participavam da blitz; ficava sentado dentro da viatura, esperando a oportunidade de fazer teatro.

— To chegando. Mais uns cinco minutos e estou aí.

— Vêm logo que tem uma prêmio para subir.

— Não faz isso não, cara — disse o motorista. — Preciso do carro para trabalhar...

— Tu não falou que tava desempregado, maluco? — um incentivo quase sempre funcionava. — Vai ter que soltar um dinheiro aí, se não quiser perder o carro.

— Eu juro que não tenho... pode olhar na minha carteira... não faz isso comigo não.

Ver homem chorando não é mole. Ainda mais um que você sabe que está fudido. Não precisava abrir a carteira dele para saber.

Bati com as mãos na porta e andei devagar até o sargento. Não posso fingir que não estava temeroso. O homem costumava explodir por qualquer coisa.

Esperei ele liberar um outro veículo, um ato que normalmente só acontecia depois que o motorista passava novamente os documentos do carro para ele, dessa vez recheados com um ingrediente especial.

— Já vem merda, Amarildo?

— O cara tá fudido, sargento.

— Fudido anda de carro, Amarildo?

Não respondi, mas pensei se era certo chamar aquilo de carro.

— Por que tá saindo fumaça lá de dentro?

— É um galeto.

— Então pega o galeto.

— O galeto? — minha surpresa foi tão grande que cheguei a abrir os braços, gesto que com certeza irritaria Wagner; por sorte, ele já estava virado para a rua, procurando um novo alvo.

— É, e traz logo que já está na hora do almoço. Assim eu não preciso gastar com comida. — já estava indo quando ele perguntou: — Espera, tem refrigerante?

Que porra de mundo é esse!

— Tem.

— Então traz também.

Fui até o carro, perguntando-me em que ponto do caminho eu me perdera.

— Seguinte amigo — coloquei novamente o rosto na janela. — Deixa o galeto e a coca que o sargento vai liberar.

— Que isso, maluco — até ele perdeu a compostura. — É o almoço das minhas crianças. Hoje é domingo, não posso deixar elas sem carne, não.

— Então tu vai a pé, malandro. Tu tá até com sorte, que o sargento tá de bom humor. Decide logo aí. Ou passa o frango ou salta do carro e carrega ele no sol.

 

$ $ $

 

Entreguei para o sargento o galeto e a coca, enquanto observava a Fiat Prêmio ir embora rateando. Como esperava, Wagner não dividiu com ninguém o prêmio: sentou sozinho na viatura e encostou o papel laminado da quentinha na curva da enorme barriga. Atacou primeiro as coxas, depois o peito e as asas do frango.  
   
Os outros colegas foram almoçar numa pensão próxima, patrocinados pelos motoristas irregulares da cidade do Rio. Fiquei sozinho em outra viatura, sonhando com o término do serviço e com o resto da feijoada que minha mulher — pelo menos assim espero — guardou para mim. Os dez reais que tinha trazido para almoçar foram dentro do documento da Fiat, junto com a recomendação de usar outro caminho depois de voltar à padaria e comprar outro galeto.

Não que eu esteja fazendo campanha para canonização, ou coisa parecida. Mas porra, até galeto!?  

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Tb discordo. O conto é muito maneiro, muito engraçado. Adorei o PM Amarildo.

Rosanne, 29/07/2007

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Discordo do cometário abaixo, tem como ter uma idéia pelo título e no desenrolar da história, mas no primeiro parágrafo não informa se é um Blitz. Achei o conto hilário e triste por ser essa realidade brasileira

Aline Andrade , 29/07/2007

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É errado somente fazer elogios, porque, além de nada ser perfeito, só fazê-lo mostra que se oculta os erros. Embora mostre com crueldade a realidade, como conto peca: no primeiro parágrafo sabia todo o desenrolar. Porém mantenho o elogio ao retratar nosso cenário como realmente é.

Rafael Barroso, 26/07/2007

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