
O segundo livro de John Grisham alavancou o autor estadunidense ao estrelato do populoso mercado editorial americano e transformou-o numa celebridade instantânea ao encabeçar por algumas semanas a lista dos mais vendidos do New York Times. Escrito em 1991, foi adaptado aos cinemas dois anos depois, consolidando definitivamente Grisham como um dos grandes escritores do chamado thriller jurídico.
Aos que não leram nem assistiram ao filme, dedico a primeira parte desta resenha, deixando a crítica para a segunda parte, poupando o leitor de descobrir segredos fundamentais da trama.
A história inicia quando o recém formado por Harvard, Mitchell McDeere está buscando um escritório que melhor se “adapte” ao seu currículo e às qualidades. Aqui o autor nos faz uma fotografia do que é a inserção no mercado de trabalho jurídico estadunidense quando nos mostra uma série de firmas caçando jovens brilhantes para jogar em departamentos jurídicos inflados e repletos de trabalho repetitivo e braçal dentro do sistema legal americano, garantindo, no entanto, a compensação financeira necessária do meio work-a-holic, típica do conhecido e moderno american way of life.
Mitchell recebe então a oferta de trabalhar num pequeno escritório numa cidade relativamente pequena (Menphis) se comparada às outras das quais recebera proposta (Nova York, Boston). No entanto a pequena firma de advogados Bendini, Lambert e Locke faz uma oferta irrecusável para o jovem bacharel: um salário excepcionalmente maior que os demais, um plano de carreiras especial onde todos os membros do escritório acabam se tornando sócios em poucos meses, a oportunidade de trabalhar em um escritório tão seleto e fechado que lembra uma família, uma sala grande e bem mobiliada com tudo o que ele tem direito e um pequeno BMW de gratificação inicial.
Tentado, o jovem Mitchell aceita a oferta e, à medida que se embrenha na firma e começa a se envolver nos casos mais “cabeludos” (junto com a necessidade de viajar para as Ilhas Caimãs para “limpeza fiscal”), se vê envolvido numa Sociedade cada vez mais difícil de escapar. Há uma má notícia: apenas duas saídas nos últimos anos no escritório, todos os dois, mortos.
A leitura é primordial a qualquer um que deseja se aprofundar no sistema jurídico norte-americano e principalmente conhecer como o incomparável autor de best-sellers iniciou seu sucesso. Quem já viu o filme, o livro é complementar e interessante.
Crítica (Contento informações sobre a trama) (Contém spoilers)
John Grisham dá uma tacada de mestre quando, nos fazendo acreditar que estamos envolvidos apenas num intricado problema legal de corporativismo e corrupção empresarial, nos coloca também presos a uma trama que cativa a quase todo americano que gosta deste gênero literário: A Máfia.
São notórios os livros da Máfia Ítalo-Americana de grande sucesso que renderam aos seus autores consagração literária e cinematográfica como Mario Puzo e Sidney Sheldon, este último tendo dois ou três livros que abordam o tema, mas sem tanto sucesso entre o público quanto o primeiro. Tanto é que nos últimos tempos novos autores continuam a contar histórias dos personagens criados por esses autores, como é o caso da continuação da família Corleone através das ações de Vincenzo Corleone (interpretado por Andy Garcia no Terceiro Filme da série).
A questão do controle total sobre a vida dos Sócios da Empresa é algo que cada vez nos aproxima da realidade se formos questionar a situação empresarial, não só relativa ao meio jurídico. Com personagens marcantes e cruéis para encarnar os vilões como Nathan Locke e suas rugas expressivas bem como para figurar camuflados bandidos, como é o caso de Lambert, Grisham prende até a última página do livro, tamanho caos que ele cria que você se preocupa em saber “como será o final disso, meu deus do céu?”.
Faz parte das obras de Grisham também o crescimento profissional e econômico de seu personagem. Acompanhamos de perto as excentricidades que os altos honorários concedem a Mitchell e com ele vivemos parte do “sonho” de uma grande sala, trabalhar numa firma de sucesso, visitar grandes hotéis nas Ilhas Caimãs. O leitor se prende e se envolve com o personagem e fica igualmente maravilhado com um mundo de luxo que o autor nos mostra, seja nos carros possantes e nas casas enormes de “A Firma” ou então nos jatinhos e barcos de “O Rei das Fraudes”, que será futuramente resenhado aqui para o Beco do Crime.
Como já disse, leitura indispensável para os fãs do autor e também dos fãs do gênero thriller jurídico, cada vez mais em voga no Brasil.
Outros livros de Jhon Grisham:
Tempo de Matar
O Testamento |