Diálogos inteligentes, enredo desafiador. Um marco no gênero policial brasileiro.
Cachorro do Autor, por expressão corporal

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"As mentes são como os pára-quedas: só
funcionam se estiverem abertas.
"
Ruth Noller - Pesquisadora da Universidade de Buffalo.

 

A Mansão Hollow foi não só o primeiro livro de Agatha Christie que li, mas também o primeiro livro não escolar, sem gravuras, que abri em minha vida. Confesso que relutei bastante para começar. Devia estar pelos 13 anos, e já havia ouvido falar na “rainha do crime”, mas as duzentas e poucas páginas do volume eram, então, uma barreira intransponível para mim. Tinha o achado por acaso, dentro de uma caixa empoeirada, num quarto que só servia para guardar bagulhada. Levei-o para meu próprio quarto, por que até hoje não sei direito, e coloquei-o na estante, onde ficou por alguns meses. De vez em quando pensava em abri-lo, mas nunca me sentia com coragem. Parecia haver sempre uma brincadeira a me chamar atenção e, quando não tinha o que fazer, a preguiça me dominava. Afinal, eu levaria uma eternidade para ler as tais duzentas páginas! E, ainda por cima, eu associava livro à escola que, a exemplo de vários garotos da minha idade, achava um porre. Assim o tempo passou.

Um dia, por causa de uma chuva, resolvi me aventurar entre as páginas. O fato é que parou de chover, entrou a madrugada e eu não larguei o danado do livro. Não me lembro com exatidão, mas acredito que terminei no mesmo dia. “Entrar na cabeça” de cada um dos personagens, viver seus dramas, derrotas e vitórias, entender a motivação por trás de cada ato, cada diálogo. A emoção do que vai acontecer em seguida, de como o detetive excêntrico iria resolver o mistério que para mim era um fosso sem fundo, me tomaram por inteiro. Criei as mais disparatadas teorias, sopesei cada uma das pistas que me eram dadas, lutei contra o impulso de olhar as páginas finais e descobrir o nome do assassino.

A partir daí vieram todos os outros livros de Agatha, de Conan Doyle, de Antoine de Saint-Exupéry, de Richard Bach. A lista é infindável. Um mundo novo e maravilhoso tinha se aberto para mim, e continuo a explorá-lo até hoje.

Por tudo isso, me espantei quando vi que “A Mansão Hollow” era tachado por alguns como o pior livro de Agatha Christie. De outro lado, encontrei pessoas, assim como eu, que o consideravam um de seus melhores livros, ao lado de obras-primas como “O caso dos Dez Negrinhos” e o “Assassinato de Roger Ackroyd”. Reli o livro (pela centésima vez) e gostaria de colocar mais pimenta na controvérsia.

É fato que é o livro de Agatha que mais valoriza o lado psicológico de cada personagem. Todos são profundos, complexos, e por isso reais. A construção de um rico casal rural inglês, preparando-se para receber alguns convidados durante o final de semana, é perfeita. Cada um deles tem suas motivações e características expostas aos leitores de forma inteligente, estando presente o tom de humor tão característico da autora na personagem Lucy Angkatell.

Quando todos verdadeiramente se encontram, forma-se uma sopa com ingredientes que não se combinam, sendo aos poucos criado o clima para o desenlace violento de um deles. Um crime a princípio sem grandes mistérios, mas que se revela um desafio para o impagável detetive Hercule Poroit, que está em sua melhor forma.

Não se trata do livro policial tradicional, no qual o assassinato ocorre no início e o detetive passa dois terços do livro interrogando todo mundo para oferecer a brilhante e lógica solução no final. É muito mais sutil que isso, pois Poroit trabalha nos bastidores, sabendo que está lutando contra uma mente que é poderosa o suficiente para fazer frente a sua. Um jogo de gato e rato de alto nível, puramente psicológico, um dos melhores criados por Agatha ao longo da carreira.

A solução da trama — que foge a fórmula repetitiva que a escritora criou para seus livros — é absolutamente brilhante em sua simplicidade. Leva ao leitor ao estado de assombramento, pois ele percebe que tudo esteve diante dos seus olhos o tempo todo, e que podia ter chego a mesma conclusão de Poroit.

Por todos esses fatores — pouco importando quem ache que é o melhor ou o pior livro de Agatha —, é leitura obrigatória para quem quiser fazer uma verdadeira viagem pelo drama humano sentado em sua poltrona predileta. Por experiência própria.

 

Outros livros de Agatha:

Assassinato de Roger Ackroyd, O
Assassinato no Expresso do Oriente, Os
Caso dos Dez Negrinhos, O
Cinco Porquinhos, Os

Crimes ABC , Os  
Mistério dos Sete Relógios, O 

 

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Sem comentários... realmente está bem descrito e concordo contigo: um dos melhores. É simples sim... não chega a ser uma solução mirabolante, mas dúvido que alguém tenha conseguido sem maiores dificuldades descobrir o assassino... de tão simples, chega a ser engenhoso =]

Amadeu Jr, 02/08/2009
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Realmente, A Mansão Hollow para mim foi uma surpresa. Nota-se durante todo o livro que a autora se preocupa mais em demonstrar o caráter psíquico de cada personagem do que na efetiva solução do caso, o que o torna um livro bastante simples, apesar de ter um tamanho acima da média da escritora. No entanto, comparado com outros, a inovação citada não o tira da minha lista pessoal dos piores livros de Agatha Christie.

Renato Donadai , 21/12/2008
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Como ainda não li nenhum livro da autora sou um pouco suspeita para dar alguma opinião a respeito, no entanto tenho muita curiosidade em lê-los pois através dos resumos q leio os acho bem interessantes.

Marcia, 30/10/2008
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Muito bom.

Tiago Feroldi , 12/06/2008
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