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         Trecho do livro Assassinato na Vila Noêmia.
               
 
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Do capítulo: A SEGUNDA REUNIÃO

 

Linda, com suas mechas rosa e roupas pretas, parecendo sempre longe, mas com olhos que não perdiam nada do que ocorria à sua volta; Fábio, a face tomada de túmulos de acnes, uma expressão de superioridade, como se tivesse sido obrigado a jantar com os criados; Beatriz, os olhos envidraçados voltados para o chão, pela primeira vez parecendo não estar à vontade; João, as mãos espectrais enterradas nos bolsos, talvez lamentando ser impossível se esconder ali por completo; Camila, sempre um ímã para os olhos de dez entre dez homens, parecendo entediada com tudo aquilo; Ivone, talvez dez quilos mais magra do que três semanas atrás, sentada em um banco; Luiz, os olhos arregalados no rosto gordo, ansioso para assistir ao espetáculo prometido; e Carlos, parado com os braços cruzados, o crânio simiesco voltado para frente.

Diferentemente da outra reunião, quando os que compareceram dispuseram-se num círculo desorganizado, hoje eles formavam uma meia circunferência quase perfeita, como num U bem aberto. Ricardo Dantas posicionou-se à frente, como num palco de teatro, desfrutando dos olhares da plateia.

Nove pessoas. A maioria não se conhecia muito bem - ou nem simpatizava um com outro; entretanto, estavam unidos não só pelo laço da vizinhança, mas por um muito mais duradouro, que permaneceria mesmo se mudassem para outro estado. Um laço que ficaria evidente ao final desta reunião. Stéfano não estava presente; mas, para os propósitos do advogado, era como se estivesse. Aos olhos de Dantas, para efeitos práticos, ele também estava ali, formando o U como os demais.

— E então? — perguntou Fábio, cruzando os braços.

— O que o senhor quer? — reforçou Camila.

Dantas permaneceu imóvel, perscrutando todos os presentes com mais intensidade do que eles o olhavam.

— Os pedreiros já descobriram o vazamento na minha cozinha — prosseguiu Camila, ante o silêncio do advogado.

— Vinha mesmo da casa de Carlos.

— Não — retrucou o próprio imediatamente. — O vazamento foi na junção que divide o cano entre as duas casas. O custo da obra deve ser dividido.
Ele esperou o parecer de Dantas, que retirou os óculos e os limpou na blusa. Sem eles, seus olhos azuis pareciam extremamente brilhantes.

— Eu não vim discutir o vazamento da sua cozinha, senhor Carlos.
Luiz e Carlos principiaram a falar, porém Beatriz, mais próxima ao advogado, sobrepujou os dois.

— Veio falar da pintura, então? Ficou ótima. E a obra do esgoto está quase terminada.

— Ele veio para cobrar alguma cota extra — acusou Fábio. — Vai nos depenar por causa dessa obra. Se tivessem me eleito síndico, eu não iria cobrar...

— Ele não veio para falar assuntos de condomínio, papai — aduziu com perspicácia Linda, que não tirava os olhos de Dantas um segundo.

— Não? Mas então...

O advogado recolocou os óculos e deu um passo à frente. Não podia reclamar de falta de atenção. Ao seu lado direito estava a casa que fora de Noêmia, agora lacrada com uma folha de papel ofício assinada pelo juiz. Se estivessem nos Estados Unidos, com certeza haveria um bocado de fita amarela cruzando a porta. Mas aqui é Brasil, e o papel cumpria a função muito bem. Dantas apontou para a casa.

— Esta reunião deveria contar com a presença de mais duas pessoas. Uma delas, inclusive, deveria estar aqui no meu lugar. Infelizmente, não é possível — ele meneou a cabeça. — Não é possível porque uma está presa e a outra morta. Não devido a causas naturais, que fazem parte da vida, mas porque alguém entrou por aquela porta com um sorriso no rosto e uma faca no bolso. E cortou sem pestanejar sua garganta, deixando-a sangrar por quase um minuto, até que morresse.

Na face de todos não eram mais os olhos que chamavam atenção, mas as bocas, abertas, denotando surpresa absoluta. Alguém mais atento, todavia, poderia perceber mais que surpresa naquelas expressões; poderia entrever um suave retesar de músculos, como se um primitivo sinal de alerta houvesse soado em cada uma daquelas cabeças.

— Mas o que isso tem a ver com esta reunião? — indagou Fábio, olhando para os demais como se buscasse apoio. Os outros moradores, no entanto, pareciam mais preocupados com que o advogado iria falar do que com os problemas condominiais que deveriam ser ali discutidos.

— Tudo — retrucou Dantas. — Ela podia não realizar reuniões de condomínio, ou mesmo ser uma boa síndica ou vizinha, mas era um ser humano assim como o senhor e eu. E, como nós, também possuía sua própria vida e sonhos, os quais foram repentinamente tolhidos, da forma mais cruel.

— Não está dando para entender — Beatriz chegou para frente. — O filho dela está preso. Por que o senhor está trazendo...

— Aí que você se engana, Beatriz. Stéfano está preso sim, mas possuo provas incontestáveis de sua inocência. Esse é o motivo de eu estar aqui.
Dessa vez o espanto foi tanto que impediu qualquer um de se pronunciar. O advogado continuou, após breve pausa:

— Não sou administrador de condomínios. Sou um advogado de defesa, e aceitei o caso de Stéfano.

Luiz fez a pior careta que o advogado já havia visto na vida, mas quem realmente conseguiu vencer a imobilidade que pairava no pátio foi Linda, com a voz forçada:

— Por que veio à vila?

— Pelas condições em que o crime foi cometido, não há a menor dúvida de que o assassino é um dos moradores dessa vila. Alguém que já estava aqui na tarde fatal, e apenas saiu de sua casa e atravessou o pátio para tirar a vida de dona Noêmia.

Beatriz levou a mão à boca e Camila chegou a soltar um Oh! abafado. O advogado prosseguiu, inexorável:

— Isso mesmo, senhores. O assassino, ou assassina, pisa agora mesmo neste pátio, escutando minhas palavras. E deixo-lhe um aviso: pode ter a certeza, seja ele quem for, de que o pegarei — Dantas aproveitou o silêncio. — Isso é certo.



Sinopse e demais detalhes?



 

 

 











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